O Estado de S. Paulo - 24/02/2008 - por Moacir Amâncio
A literatura judaica brasileira tem sido praticamente asquenazita. Isto é, produto de descendentes de judeus que deixaram a Europa Oriental no século 20, falantes do iídiche, idioma de base alemã com elementos eslavos, hebraicos e aramaicos. Moacyr Scliar, Samuel Rawet, Bernardo Ajzenberg, Cíntia Moscovitch, etc. Judeus sefarditas, de origem hispano-portuguesa que se espalharam pela Inglaterra, França, Holanda, Itália, Oriente Médio e África do Norte estão presentes no país desde 1820, quando se formou a primeira comunidade judaica organizada em Belém - eram imigrantes marroquinos. No entanto, a literatura de ficção seria mais rarefeita entre eles. Mas este é apenas um dos motivos pelos quais a publicação do romance A chave de casa, de Tatiana Salem Levy (Record, 208 pp., R$ 32,), deve ser assinalada.
Neta de judeus da Turquia e filha de comunistas do Brasil, a narradora recebe do avô a chave que abriria a porta da casa de Esmirna, para onde os avós fugiram durante a Inquisição.
Quatro histórias numa única estréia
A gente vai logo entregando, mesmo sob o risco de cometer uma indelicadeza e ganhar uma inimiga: na semana que vem, a escritora Tatiana Salem Levy completa 29 anos. Depois de participar de antologias de contos, essa “jovem nem tão jovem assim”, em suas próprias palavras, acaba de publicar o seu primeiro romance, "A Chave da Casa", pela editora Record. O livro acompanha a protagonista na busca da história de sua família, depois de receber a chave que abriria a casa em que seu avô havia morado na Turquia. A narrativa tem um jeitão de fluxo de pensamentos e lembranças, assumindo a cada capítulo tempos, locais e temas distintos.
— Construir um romance dessa forma é uma delícia, porque te permite trabalhar um dia com cada narrativa. Na verdade, eu tinha quatro histórias diferentes para escrever, mas que eram uma mesma e única história. Cada história exige uma forma de ser contada, e é tarefa do escritor encontrar essa forma, a narrativa que melhor lhe convém — conta ela."A Chave da Casa" é construído num tom autobiográfico — a própria Tatiana é neta de judeus turcos — e é repleto de simbolismos com o desejo de se escrever um livro. — Eu gosto do termo autoficção, por misturar as duas idéias, a de que se escreve sobre si próprio e a de que tudo é ficção. É embaralhar fato e ficção, fazer com que as duas se misturem a tal ponto que essa distinção perca o sentido — diz Tatiana, comentando a dificuldade de se lançar um primeiro romance. — Tem um lado prazeroso, que é o de ver que é possível, que eu publiquei meu livro, que as pessoas estão lendo. Faz muito tempo que eu sei que quero ser escritora. Demorou, mas eu sempre respeitei esse tempo, e aí está meu primeiro romance. E sei que outros virão. (André Miranda & Télio Navega)
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