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IDENTIDADE PERDIDA

Rubens Shirassu Júnior*

Da ficção de Henrique Chagas, em seu livro "Verdes Trigos", transparece um projeto que se poderia chamar de Calladiano, na medida em que seu romance tenta sondar os avessos da recente história brasileira, aproveitando para tanto, a paisagem da região sudeste do Brasil, especificamente do Pontal do Paranapanema. Pode ver-se uma grande religiosidade em relação aos destinos do Brasil, pois permanece o deslumbramento pela exuberância da nossa natureza.

A ficção como tentativa de "revelação e conhecimento do país" constitui o projeto dos românticos e é, ainda, o projeto de Chagas que, como Antônio Callado, Oswald de Andrade e, há poucos anos, Fernando Gabeira, no exílio e a partir dele, redescobre o Brasil do interior paulista. Conforme ele próprio nos conta em vários depoimentos, os anos vividos em Presidente Prudente foram significativamente responsáveis pelo seu projeto de trabalho (e, de certa forma, também de vida) na volta às origens. As viagens e o romance servem, daí para frente, a um verdadeiro mapeamento do país.

Nessa viagem pelo deserto, vamos recompondo diferentes Brasis, pelo cheiro e pela cor, pelos sons característicos, pela fauna e pela flora. Henrique Chagas utiliza os ecos da reforma agrária e florestas nossas como um jornalista que aproveita os dados colhidos para suas reportagens, transformando-os mais cedo ou mais tarde em matéria de ficção. Em geral, isso ocorre cedo, pois seu romance parece mover-se pelo sentido da urgência, debruçando-se sobre a realidade político-social, na tentativa de iluminar e desvendar, pelo esforço da imaginação, aquilo que o jornal e a História oficial deixaram na sombra.

Temas Universais


O localismo ostensivo que amarra esse escritor ainda às origens do romance brasileiro, de uma literatura e de um país em busca da própria identidade (e até mesmo a um certo regionalismo, neste romance), tem sua contrapartida universalizante, transcendendo fronteiras e alcançando "os grandes problemas da vida e da morte, da pureza e da corrupção, da incredulidade e da fé". Aliás, do mergulho no local e no histórico é que resulta na concretização desses temas universais: pelo confronto das classes sociais em luta no Pontal do Paranapanema, chega-se à temática mais geral da exploração do homem pelo homem e das centelhas de revolta que, periodicamente, acendem fogueiras entre os dominados; pela história individual do Zé Rainha, tematiza-se a situação geral dos excluídos, dos trabalhadores sem terra e do líder de classe que se debate entre dois mundos; pela sondagem da consciência dos menos favorecidos, chega-se a esboçar uma espécie de tratado da mísera existência humana, que nos faz vislumbrar os abismos de todos nós.

Numa primeira leitura, o livro é uma ficção mais diretamente política do escritor, mas, essa passagem, da procura de identidade ao religioso (com a qual Verdes Trigos tece mesmo a sua trama), conserva sempre uma certa religiosidade. Outros vão lê-lo como a trajetória do abandono da questão existencialista pelo religioso, mas, na verdade, essa leitura é um tanto simplista. Trata, muito mais, de percepção quase profética dos novos rumos que a própria igreja e a questão dos bens materiais estão começando a trilhar, no Brasil e no mundo, bem como da afirmação de uma religiosidade mais livre para uma sociedade mais justa.

Chagas mesmo reconhece que essa religiosidade, presente neste livro, deve-se à sua formação, na época em que o catolicismo era uma prática e um pensamento que faziam parte do dia-a-dia das famílias de classe média e alta no Brasil. Seu romance transpira esse clima religioso sob o qual ele viveu a infância e a adolescência, bem como o momento histórico que testemunhou: a tentativa de mudança de hábitos da Igreja, depois de João Paulo II, que no Brasil o escritor teve oportunidade de observar de perto, com a súbita entrada dos padres nos movimentos sociais. Assim como as pessoas, perseguindo as suas próprias obsessões, alteram a vida social, as transformações sociais repercutem fundo nelas, obrigando-as a retraçar seus projetos individuais. Por isso, o drama de Henrique Chagas é o drama dos escritores dos anos 80 e 90, quando o tempo não está para utopias e mal se pode constatar a realidade como ela é, quanto mais imaginar como deveria ser. Os impasses do personagem Ulisses na busca do sentido em meio ao fragmento, da legibilidade na realidade ilegível, transparece mais em "Verdes Trigos".

No Centro do Umbigo

O que fica de bastante significativo para a nossa reflexão é a inconseqüência na forma que mina a imagem do Brasil gigante, de florestas exuberantes, flores perfumadas e belas Iracemas, para deixar aparecer o que ela mascarava: a situação da maior parte dos brasileiros, vivendo à margem da História, na pobreza e na ignorância. E, curiosamente, essa presença aparece pela ausência mesma do povo que vai sumindo da cena, como a marcar a distância secular que o separa das elites. Em "Verdes Trigos" ele tem um lugar no centro dos acontecimentos narrados, é do umbigo que ele tudo observa.

Sobre o Autor

Rubens Shirassu Júnior: Designer artístico, jornalista e autor entre outros de Religar às Origens (Ensaios, 2003) e Oriente-se: Manual de Procedimentos no Japão, 1999.
É o autor da coluna OLHO MÁGICO na VERDES TRIGOS.

Contato: jrrs@estadao.com.br

Veja também o "ORIENTE-SE: Manual de Procedimentos no Japão"
Edição Independente de Rubens Shirassu Júnior
Site do Livro: http://www.stetnet.com.br/orientese/

 

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