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26 de Abril de 2008

Garimpos na atualidade e no passado: filmes que andei vendo, por Chico Lopes

De vez em quando, há leitores do que escrevo aqui no "Verdes Trigos" que me cobram o fato de comentar mais filmes antigos que novos ou me acusam de só gostar de "filmes velhos". Mal respondo à acusação de só gostar de filmes do passado, porque é simplesmente uma atitude do pior obscurantismo e ignorância - como se a história do Cinema fosse desdenhável e tudo tivesse começado ontem, com algum dos fetiches tecnológicos de Spielberg e Lucas. Gosto de tudo, de qualquer época, contanto que seja bom de fato. É impossível entender o que é o Cinema sem ver os chamados "filmes velhos".Acho privilegiada uma época como a nossa, em que DVDs de velhos filmes não param de sair, que nos permitem olhar para o passado, avaliar o que foi feito, comparar com o presente (ainda que seja para lamentar este) ou simplesmente fazer uma viagem deliberadamente saudosista a personagens e valores tidos por antiquados, por quê não? (se a modernidade prega que toda pretensão a valor é hipocrisia e só a maldade dá uma idéia fiel do ser humano, talvez o que está decididamente fora de moda seja a única salvação).
Vou vendo filmes de todos os tipos, tempos e lugares. Um pouco do que ando vendo segue aqui, talvez como orientação para algum leitor que aprecie meu gosto (ou desgosto) e queira concordar (ou discordar) comigo futuramente:

ENCANTADA - Produto de Walt Disney que pretende fazer paródia dos desenhos animados clássicos do estúdio como "A Bela Adormecida", "Branca de Neve e os Sete Anões", e consegue ser inteligente e engenhoso, ao menos até à metade. A princesa típica de todos os desenhos Disney, que inclusive, folgada, faz uso de animais para serviços domésticos convocando-os com musiquinhas melosas, sofre maldição de uma bruxa, cai num abismo e este abismo dá num buraco de esgoto de uma rua da Nova York atual, onde o desenho sai como atriz (Amy Adams).
Aí, o filme passa a ser uma comédia romântica normal. Ela sai à procura de um castelo e do príncipe com quem deve se casar, deparando-se com a brutalidade do mundo contemporâneo (como se não houvesse muita crueldade velada naqueles desenhos todos!). Encontra um jovem executivo realista (nesses filmes, o sujeito que não crê em fantasia é rapidamente estigmatizado como um tipo cruel e sem imaginação) e desiludido que tem uma noiva, mas não é feliz (vocês já entenderam tudo). O filme faz rir, mas, quando a gente se dá conta, está pregando precisamente todos os valores que tentou parodiar até então, e sentimos que fomos chantageados de maneira bem baixa. Uma pena. Mas Amy Adams é boa atriz. ==>> LEIA MAIS

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13 de Março de 2008

'O FILHO DA BRUXA': sequência de "MALIGNA" já está nas livrarias

CHICO LOPES, tradutor brasileiro de Gregory Maguire, fala do romance
Chico Lopes, escritor e tradutor, traduziu para os leitores brasileiros "Maligna" ("Wicked"), o maior sucesso editorial do escritor norte-americano Gregory Maguire, que foi lançado em 2007 no Brasil pela Ediouro. É dele também a tradução da seqüência de "Maligna", "O filho da bruxa" ("Son of a witch") que já está nas livrarias, também em lançamento da Ediouro. Chico Lopes, admirador do estilo ricamente imaginativo e ambíguo dos livros de Maguire, fala de seu trabalho nos dois livros e conta um pouco a respeito da história de "O filho da bruxa", em entrevista exclusiva a este site cultural:

VerdesTrigos: O grande sucesso de "Maligna", romance muito vendido nos EUA e transformado em musical da "Broadway", gerou essa seqüência em que ano?
Chico Lopes: "O filho da bruxa" ("Son of a witch") saiu em 2005. Era uma seqüência muito esperada, em virtude do sucesso de "Maligna". Maguire tem uma grande legião de fãs nos Estados Unidos. Ele fez, com histórias tradicionais de fadas, bruxas, heróis e mitos do mundo infanto-juvenil, uma operação corajosa, injetando neles uma veia política contestatória, ambigüidade existencial, moral e até sexual, tornando esses livros agradáveis e inteligentes até (e talvez principalmente) para adultos. "Maligna" é uma obra-prima, em seu gênero. "O filho da bruxa" segue o primeiro romance com fantasia desvairada, contando a história de Liir, suposto filho da bruxa Elphaba com o príncipe Fiyero dos Arjikis, na primeira parte. Sem ter certeza de quem são seus pais, ele vive aventuras fantásticas nesse segundo livro. Grandes surpresas esperam quem leu "Maligna" e deseja ler esta seqüência. O sucesso de "Maligna" ("Wicked") nos palcos da Broadway fez com que Gregory Maguire dedicasse este segundo livro ao elenco e à equipe do musical, que estreou na Broadway em outubro de 2003, na noite anterior ao "Halloween" (Dia das Bruxas). ===>>> LEIA A ENTREVISTA

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8 de Março de 2008

PAUL BOWLES: autobiografia e contos de um viajante sem volta, por Chico Lopes

Paul Bowles como escritor e personagem começou a me despertar interesse - como acho que em quase todo mundo que o leu - pelo filme "O céu que nos protege", de Bernardo Bertolucci. O filme mexeu com gente menos convencional, precisamente por tratar de dois viajantes nada convencionais, Paul e sua mulher, Jane Auer. Bem óbvio que eles eram a fonte direta de inspiração do casal vivido no filme por John Malcovich e Debra Winger.
Nos anos 90, com esse sucesso cinematográfico obtido em nichos mais intelectualizados, houve um interesse editorial pela obra de Bowles no Brasil e, na ocasião, comprei dois livros seus editados pela Rocco, "Chá nas montanhas" e "Um amigo do mundo", que ainda, com sorte, podem ser encontrados em sebos e promoções.
Uma escritora amiga, Yara Camillo, falou-me de Bowles no final do ano passado e se referiu a uma autobiografia do escritor que eu não conhecia: "Tantos caminhos", lançada no Brasil pela Martins Fontes (edição de 1994).
Yara acabou me emprestando "Tantos caminhos" e mergulhei na leitura. Achei o livro muito interessante, decisivo para se entender a personalidade do escritor a partir de sua vida, e é uma pena que seja item de sebo, porque muita gente poderia se aproveitar da leitura. Poderia ser reeditado, mesmo com a onda Bowles tendo passado. Aliás, uma das vantagens da "poeira assentada" na questão das modas literárias é que se pode conhecer melhor um autor e sua obra tempos depois que o incensamento automático e duvidoso já sumiu de vista e os consumidores de cultura, tão fúteis, novidadeiros e desmemoriados quanto quaisquer outros, nem têm mais nada a dizer a respeito de dada figura e de seus livros. Com paixões e foguetórios apagados, faz-se um juízo mais sóbrio do que houve (tem-se a impressão de que essas ondas são ainda mais levianas entre nós, porque pouca gente lê de fato o que diz estar lendo; quase tudo é citação vaga para impressionar patotinhas presunçosas). ==>>> LEIA MAIS

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24 de Fevereiro de 2008

RIMBAUD e JACK KEROUAC: o prazer e o luto das biografias, por Chico Lopes

Ultimamente, diante da dificuldade para se comprar livros devido aos preços assustadores, tenho me inclinado para títulos que sempre quis ler disponíveis em sebos e promoções (basta ter paciência e sair à procura) ou para edições que têm preços mais justos para um brasileiro comum, de poder aquisitivo claramente limitado. Entre esses livros, comecei a comprar os da editora L&PM, pockets de gêneros muito diversificados, capazes de atrair, pela fama dos autores e mesmo pela audácia de certas edições. De cara, mergulhei nos muitos Bukowskis que a editora oferece. Depois, fui vendo outros títulos, e decidi que tinha que ler um clássico que todo mundo parece conhecer, mas no qual eu nunca pegara: "On the road", de Jack Kerouac. O livro andava sendo de novo comentado por conta de uma adaptação cinematográfica que teria, sob direção de Walter Salles, nos EUA. O filme estaria sendo produzido e seria lançado neste 2008. Mas, de nada mais sei. Em todo caso, valeu o clima de comentário, porque isso me fez ir ao livro, que é de fato fundamental, ainda que muita coisa tenha envelhecido.
Daí, dos Bukowskis, fui para os Kerouacs que a editora também oferece. Li "Os vagabundos iluminados", constatando que nele, infelizmente, Kerouac é derivativo, quando não desigual, auto-indulgente (o budismo devocional do livro é particularmente cansativo e redundante) ou simplesmente chato. Mas, não desanimei, porque a prosa de Kerouac, cheia desses defeitos, é também marcada por lampejos de uma força poética sempre considerável, e comprei "O viajante solitário", em que o clima de "On the road" dá melhor as suas caras. A impressão que se tem é que Kerouac foi vítima da tremenda fama adquirida por "On the road" do ponto de vista do mercado editorial e acabou tendo muita coisa sua, informe e sem interesse, publicada por questões mercadológicas, já que seu nome passou a valer ouro. Estas leituras me fizeram ter a curiosidade de saber melhor da vida dele, e, para isso, a L&PM também oferece um título: a sua biografia, escrita por Yves Buin. Basta lê-la e se descobrirá que Kerouac foi mesmo vítima da fama de seu maior livro. E que, infelizmente, não é um ser humano muito agradável. Ler esta biografia pode ser de uma tremenda importância para seus admiradores neófitos, e suponho que os tenha aos montes no Brasil, devido à lenda, que atravessa gerações. ++++++++++

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27 de Janeiro de 2008

Fuga ao real: incompreensões do público leitor, por Chico Lopes

Livrarias, claro, são dos meus ambientes favoritos, sejam elas grandes, espaçosas, iluminadas e recheadas de stands e cartazes, sejam pequenas, estreitas, cubículos como certos sebos, onde o cheiro de livros velhos já é um tremendo excitante. Mas, percebo que as livrarias de maior atração para o público, hoje em dia, não são exatamente lugares onde se pode conhecer os melhores e mais refinados leitores.
Como freqüentador, tenho tido a tristeza de constatar que quase não se procura mais livros de ficção mais refinados e incomuns e que o leitor já não se parece mais com um tipo decididamente culto com quem valha a pena conversar. Ele entra com idéia fixa na aquisição de algum livro que freqüenta a lista dos best-sellers (alguns mais rebarbativos levam até nas mãos para fazer suas compras), estrangeiros em maioria e destinados a entreter, tudo bem, mas dificilmente obras que poderão levar a reflexões maiores e mais interessantes sobre o mundo.
Quando um livro até bem corajoso como "Deus - Um delírio", de Richard Dawkins, faz sucesso, percebe-se que é menos pela força e a riqueza da argumentação do que pelo escândalo que vem suscitando um autor ateu confesso que ataca as religiões - grosso modo, é isso o que fisga o comprador superficial: um apetite pelo sensacionalismo. As razões que o levam a comprar um livro não são as melhores, infelizmente. É possível (e é mesmo observável) que muitos livros que se vem comprando a esse preço escandaloso na faixa dos 50 a 60 reais ou mais, acabem sendo pouco lidos e rapidamente negligenciados e encostados (há sebos com livros praticamente novos, deixados de lado por compradores apressados que não encontraram neles a excitação esperada).===>>> LEIA MAIS

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22 de Janeiro de 2008

Da morte de Suzanne Pleshette e outras conversas entre sobreviventes, por Chico Lopes.

Uma amiga, freqüentadora das sessões de filmes clássicos e nostálgicos que são promovidas pelo Instituto Moreira Salles - Casa da Cultura de Poços de Caldas, aos domingos, me manda e-mail com notícia da morte da atriz americana Suzanne Pleshette, aos 70 anos.
Não tivesse ela participado no papel da professora que morre atacada pelas aves, sacrificando-se pela vida da irmãzinha do homem que ama em "Os Pássaros", de Hitchcock, creio que a notícia ficaria ainda mais restrita a alguma nota de fundo de jornal. Foi também a bibliotecária que é mal vista numa cidadezinha do interior careta dos EUA e, enfastiada, vai para Roma, onde conhece Troy Donahue, no lembradíssimo (mas menos cultuado pela crítica) "O candelabro italiano", de Delmer Daves.
Seu nome era Prudence, uma piada com sua imprudência ao ler algum livro proibido naquela biblioteca de cidade do interior, que sujara a sua reputação. O filme fez todo mundo amar e chorar naqueles inícios de anos 1960, ao som de "Al-di-lá", com Emilio Perícoli. Suzanne foi casada com Donahue, idolatrado por todas as jovens de então. Ela na garupa da lambreta de Donahue é ícone nostálgico infalível na memória de muita gente.
A notícia me chegou, e a repassei a um amigo cinéfilo que, também do interior de São Paulo, na certa se lembraria de Suzanne. Tomara ele tenha lembrado, e sentido o impacto que eu senti. Foi me dando um certo calafrio pensar que há pouca, pouca gente de meu círculo - geralmente os que estão na minha faixa de cinquentão - capaz de saber quem foi Suzanne.  ===>>> LEIA MAIS

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15 de Janeiro de 2008

A última chance de Anita: o incontornável desejo e a infalível velhice, por Chico Lopes.

Entre os filmes que mais me deixaram satisfeito como espectador nos últimos anos, há uma tendência a predominar títulos do cinema espanhol. Com orçamentos pequenos, é um cinema que, desde a aparição redentora e libertária dos filmes de Almodóvar - que ganharam merecida ressonância mundial -, errando e acertando, tem sempre uma elevada dose de humanismo e uma simpatia contagiante, lembrando as melhores misturas do cinema italiano dos anos 50 e 60 (aquele delicioso calor humano, do qual a lucidez e mesmo a crueldade, não estavam excluídos, em comédias fabulosas). A gente percebe a pobreza das produções, locações limitadas, certos descuidos de figurino, cenografia, roteiro, mas isso é substituído, com talento, por uma verdade documental muito grande e por atores que se entregam aos papéis com vontade visceral de acertar.
Exemplo disso é o pequeno filme, que se vê por aí, despretensioso, nas locadoras (e muita gente nem tem maiores referências a seu respeito) chamado "Anita não perde a chance", de Ventura Pons.
"Anita não perde a chance" ("Anita no perde el tren") é de 2000 e não marcou maior presença, mas vale ser visto e descoberto, especialmente por quem se interessa por um cinema verdadeiramente humano, em que o melodrama e a comédia se fundem. Não é um grande filme, longe disso. Tampouco são grandes filmes "Fred e Elza", "Crime Perfeito" e outros petiscos espanhóis das locadoras. Mas, tal como os outros, a sua imperfeição é cheia de uma humanidade vital. ==>> LEIA MAIS

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13 de Janeiro de 2008

Filmes dignos de espera: as promessas cinematográficas do ano de 2008, por Chico Lopes.

O começo de 2008 está já com ares de celebração nos cinemas. Muita coisa boa e elogiada pela crítica americana deve chegar neste janeiro e nos próximos meses. Não esquecer que o Oscar é já em fevereiro, e que "Desejo e reparação", de Joe Wright (que estreou de maneira incerta, com "Orgulho e preconceito", no cinema), está valendo todas as apostas, desde o desempenho no Globo de Ouro. Não vi o filme e espero vê-lo para, dentro em breve, comentá-lo aqui, junto aos leitores do Verdes Trigos.
Por tudo que ando lendo nos sites de cinema americanos, desde Roger Ebert e Emmanuel Levy ao painel de "reviews" no "Rotten Tomatoes", passei a ficar à espera de algumas promessas que parecem bem substanciosas.
O diretor inglês, Ridley Scott, realizador de grande talento que já nos deu "Blade Runner", "Alien - O oitavo passageiro" e "Thelma e Louise" - mas que, infelizmente, também faz filmes bem fracos e comerciais, deixando seus admiradores indecisos entre apreciá-lo e ignorá-lo - está de volta com "O gângster", que vem recebendo enormes elogios e tem dois atores de primeira nos papéis principais, Denzel Washington e Russell Crowe.
Fala-se muito também de "There will be blood" ("Sangue negro") de Paul Thomas Anderson, o mesmo autor do excelente "Magnólia", e de "No country for old men" ("Onde os fracos não têm vez") dos irmãos Coen. No primeiro, os elogios são nunca menos que rasgados para a atuação de Daniel Day Lewis na pele de um homem solitário que enriquece com o petróleo, mas cuja ambição e dureza o impede até mesmo de amar o único filho que tem. Do filme dos irmãos Coen também se fala maravilhas, especialmente do desempenho do ator espanhol Javier Bardem, que está se consagrando na América com a interpretação de um matador implacável cuja maldade intensa é coisa poucas vezes vista no cinema - já estão comparando a atuação e o personagem de Bardem com a de Anthony Hopkins para Hannibal Lecter em "O silêncio dos inocentes". ==>> LEIA MAIS

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21 de Dezembro de 2007

Suspiros de 2007 e o que esperar de 2008, por Chico Lopes.

Meus leitores sabem que sou mais de ver ou rever filmes em DVD do que de ir aos cinemas porque, decididamente, não tenho espírito novidadeiro o bastante para achar, entre os tantos lançamentos, algum que me pareça mais digno de atenção. Os filmes, na atualidade, chegam rápido ao formato DVD e, tendo passado o tempo de barulho, de "sucesso", sofrem certa decantação (ela também mais acelerada, em que pese o paradoxo) e pode-se escolher melhor. O que não nos isenta de decepções, porque, hoje em dia, há muito mais publicidade que qualidade. Os outdoors, capas de revista, páginas da Internet, obas aqui, obas acolá, dão a impressão de que cada filme que sai é imperdível. É a ilusão de um mundo excessivamente consumista onde o excesso de sinais pretensamente qualitativos a todos engana.
Nessa floresta de chamarizes falsos, é preciso ter certa resistência crítica que chega a parecer estoicismo e escolher com frieza.
O hábito de ver e trabalhar profissionalmente com filmes dá considerável fadiga nesta época, quando todo mundo se põe a fazer listas dos melhores do ano, encontrando certas unanimidades e estranhando quando alguém não dá muita bola pra elas.
Eu não me abalo. Creio que, ecoando o "ficou chato ser moderno/agora serei eterno", de Drummond, procuro mais o que é sólido nesse mar de futilidades e descartes automáticos que nos assola. Simplesmente, Will Ferrell e Adam Sandler e não sei mais quem ainda não me convenceram de que são comediantes ou atores minimamente interessantes - ninguém pode superar Jack Lemmon ou Jerry Lewis nesses momentos e, se uma mesma locadora dispõe de títulos novos e antigos, e o usuário que entra conhece bem o cinema do passado, só entrará em fria vendo coisas novas se quiser. => LEIA MAIS

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2 de Dezembro de 2007

"Da legião sem nome", por Chico Lopes.

Eles se reúnem, os insones, em torno de uma mesa de bar, num canto apertado onde claro e escuro se alternam. Eles, os que nunca conseguiram dormir cedo, embora nada encontrem na rua. Eles, os últimos a sair de qualquer bar, jamais convencidos da impossibilidade que não cessa de ser comprovada, evidência após evidência. Eles, os derradeiros crentes.
Não, não são a raça eleita, os escolhidos da Noite, dignos de uma atenção maior do Destino apenas porque mais ansiosos de vida. Essa crença é ingênua, antiga muleta dos que se organizam em rancoroso rebanho para desdenhar de outros rebanhos, opondo seitas a seitas, formando minoria apaixonada para defender pontos de vista sem defesa - pois tudo é discutível - com uma histeria que tenta compensar a fragilidade de tudo pelo excesso de gritos. + + + +

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16 de Novembro de 2007

DEZ FILMES para se levar para uma ilha deserta, por Chico Lopes.

Para quem aprecia Cinema, foi lançado pela Publifolha há alguns anos, um livrinho chamado "Ilha deserta - Filmes". Proposta curiosa: sete autores famosos, entre críticos cinematográficos, cineastas e escritores, falam dos dez filmes preferidos que levariam para uma ilha deserta. Os autores são o teledramaturgo Agnaldo Farias, os críticos de cinema Amir Labaki e Inácio de Araújo, o escritor Bernardo Carvalho, a socióloga Isa Grinspum Ferraz, o documentarista João Moreira Salles e o cineasta Ugo Giorgetti.
Essas listas dos "dez filmes preferidos", em geral solicitada a cineastas, críticos e personalidades da cultura, foram uma mania em outras épocas, quando a cinefilia parecia mais vigorosa; hoje, parecem impressionar e influir menos, porque o peso da crítica cinematográfica sobre o público é consideravelmente menor. Os gostos mudam depressa demais hoje em dia e quase não há tempo para a dedicação contínua e sistemática a uma obra cinematográfica a ponto de torná-la objeto de um culto recorrente e, sem esse tempo, sem essa disposição de espírito, não há apego ao que se vê (a descartabilidade é endêmica e frenética), não havendo, portanto, um mecanismo sólido de eleições. + + + +

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9 de Novembro de 2007

O olhar de um forasteiro que se deixou enfeitiçar por Poços de Caldas

Completando 15 anos de Poços de Caldas, o escritor Chico Lopes, nascido em Novo Horizonte, SP, escreve a crônica "O olhar de um forasteiro que ficou" sobre a bela cidade mineira, que completou 135 anos no dia 6 último.

Chico Lopes diz que sua carreira literária desabrochou por completo foi à sombra da serra da Mantiqueira e andando pela cidade de clima privilegiado e belas paisagens, tão inspiradora que o escritor Guimarães Rosa, no seu livro "Ave, palavra", chamou-a de "afrodisíaca".

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31 de Outubro de 2007

A CRÔNICA E SEUS TEMAS, por T.M. Castro

O argentino Borges disse certa vez que só escrevemos sobre experiências que imaginamos possíveis de acontecer e que tais fenômenos são mui pouco originais, isto é, o campo que nos é oferecido éexíguo, daí escrevermos sobre poucas coisas, se pretendemos originalidade.
Eis, então, que só escrevemos sobre o que é sempre possível. Para fugir deste rame-rame, deveríamos, penso, buscar material no que existe fora do comezinho sempre. Dentro do sempre há um tudo descrito ou seráque ainda há algo a ser descerrado?

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Perdoe-me eventual paciente leitor por esta minha pretensa-pseudo filosofagem em torno do escrever e seus temas. É que, colaborador episódico do sítio literário Verdes Trigos, vi-me, de repente, de mouse em punho e nada desingular no cotidiano me ocorreu para narrar, pois pelejava comigo mesmo em torno de dois episódios distintos, mas concomitantes e interligados, que aconteceram no mundo literário de Brasília, DF.
Um, o conto "Hóspedes do vento", de Chico Lopes, escritor e também colaborador de Verdes Trigos; o outro, o artigo "Escrever para quem?", de Pedro Paulo Rezende, escritor e jornalista da equipe do Correio Braziliense, ambos publicados no encarte literário Pensar, do referido periódico, sábado, dia 27 de outubro. ++++++++

 

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6 de Outubro de 2007

Rios e desertos desconhecidos de um romancista baiano, por Chico Lopes.


Bons livros nos chegam, às vezes, de maneira despretensiosa, como me chegou A dama do Velho Chico, do escritor baiano Carlos Barbosa, sobre quem eu não tinha informação alguma. Lima Trindade, editor do Verbo 21 de Salvador, Bahia, foi quem me falou dele. Entramos em contato. Como é comum entre escritores, mandei-lhe um livro meu e ele me mandou o seu, os que tínhamos disponíveis.
Sempre fui leitor de ficção mais que de outra coisa, mas, em geral, pratico muita releitura; por vezes, autores novos me desanimam devido ao meu vezo conservador de querer trilhar a trilha do já sabido, jáconhecido, experimentado e amado (e os livros muito amados só o são porque muito relidos). De modo que cometo injustiças e omissões, nesse campo, mas não estou sozinho no erro. O comodismo conspira para que percamos muita coisa. E não gosto de opinar sobre livros que não li, ou li mal (quem prestar atenção a certos comentários por aí, notará que a prática de comentar sem ter lido não é rara).
Carlos Barbosa nasceu em 1958 em Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano, e passou sua infância em Ibotirama, beiradas do São Francisco. Portanto, sabia do que falava ao elaborar esse seu primeiro romance, lançado pela Bom Texto em 2002. A dama do Velho Chico fala de paragens que nós daqui, do Sudeste, conhecemos muito mal. Quanto ao rio, flutua em nossa lembrança, com seus barcos, feito um Mississipi caboclo. Imaginamos aquelas embarcações com suas carrancas a partir de lembranças de documentários, programas especiais de tevê. Tudo fica na superfície. Mas a vantagem da Literatura é precisamente esta: livros nos vêm de outra parte, perfuram o já-sabido, trazem mundos de cujas existências mal suspeitamos, não valendo, para adivinhá-los, os nossos estereótipos ou informações de segunda mão. ++++++++

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