Crônicas,contos e outros textos

PÁGINA PRINCIPAL LISTA DE TEXTOS Chico Lopes


COMPARTILHAR FAVORITOS ver profile do autor fazer comentário Recomende para um amigo Assinar RSS salvar item em delicious relacionar no technorati participe de nossa comunidade no orkut galeria relacionar link VerdesTrigos no YouTube fazer uma busca no VerdesTrigos Imprimir

São Miguel das Missões Verdes Trigos em São Miguel das Missões/RS - Uma viagem cultural

VerdesTrigos está hospedado no Rede2

Leia mais

 




 

Link para VerdesTrigos

Se acha este sítio útil, linka-o no seu blog ou site.

Anuncie no VerdesTrigos

Anuncie seu livro, sua editora, sua arte ou seu blog no VerdesTrigos. Saiba como aqui

Desastre imperdoável, o grande Daniel Auteuil e um faroeste sem rumo

por Chico Lopes *
publicado em 17/9/2008.

ANNETE BENING NÃO SALVA PRODUÇÃO EQUIVOCADA - Há filmes diante dos quais a gente só consegue mesmo lamentar a locação. E alguém deveria atentar melhor para a questão da propaganda enganosa, nesses casos, porque, sem maiores referências sobre determinadas produções, o consumidor as procura na contracapa dos DVDs, sendo levado a uma locação por chamarizes que não se cumprem; o truque habitual é reproduzir a citação de algum crítico de alguma publicação americana colocada de tal modo que pareça importante; o destaque funciona e muita gente se deixa convencer é por aí. No caso específico de "Correndo com tesouras", a citação diz tratar-se uma "comédia brilhante".

Bem, não é uma comédia. Se queria ser, falhou clamorosamente. Como humor negro, não funciona, e, como drama, menos ainda. O filme simplesmente não é nada, não achou seu tom e, na verdade, só depois de vê-lo, como incauto bem-intencionado, é que fui saber que a crítica americana em bloco o massacrara. Com toda razão. Os críticos às vezes exageram para bem, mas, quando caem matando num filme com unanimidade, o único conselho é evitá-lo, porque não há salvação.

"Correndo com tesouras" é a autobiografia de Augusten Burroughs, narrada em forma de diário (de modo canhestro, porque, de vez em quando, o filme se perde tanto que a gente fica esperando que o diário com a voz em off volte para pôr um pouco de ordem na mixórdia). Ele é um garoto criado por uma mãe metida a poeta que, frustrada em sua ambição e no casamento com um alcoólatra que tem toda razão em considerá-la uma chata monumental (talvez beba é por ter se casado com ela), cria o filho como seu maior fã e sua única platéia. O início, mostrando a relação dos dois com habilidade, é promissor, e de imediato a gente sente que o garoto vai virar homossexual, inevitavelmente, com uma mãe ególatra e possessiva daquele jeito.

Infelizmente, o filme começa a morrer quando tenta ser uma comédia absurda, com a entrada de um psicanalista, Dr. Finch, e sua família pinel, em cena. A maior parte do que acontece a partir daí é patético e chato, nunca cômico. É um filme que dá a impressão de uma imensa canoa furada, porque reúne atores de fama, como Annete Bening, Alec Baldwin, Brian Cox, Jill Clayburgh, Joseph Fiennes, Evan Rachel Wood, Gwyneth Paltrow, e tem um bom material que poderia render muito como comédia de humor negro, realmente, ou como um drama grotesco, vívido, denunciador. Aquela mãe e aquele filho, e aquela família do psicanalista, nas mãos certas, que filme não daria!

Mas o diretor é um novato, Ryan Murphy, que veio da televisão (o filme é desprovido de criatividade visual de um modo quase absoluto) e estreou com pé esquerdo. Annete Bening, como a poeta, papel principal, quase afunda a sua carreira, dessa vez. Não que não interprete bem. Interpreta muito bem, mas o personagem é indefensável e o diretor a deixa exagerar - e a interpretação over de um personagem com quem o público não consegue simpatizar simplesmente quase a liquida como atriz.
A poeta é daquele tipo que, ressentida por não ter atingido glória alguma, passa a ser uma crítica implacável da produção poética alheia (massacra uma pobre adepta de seu círculo numa leitura). É a encarnação do despeito. Abandonada pelo marido, começa a ter casos lésbicos com outras poetas que freqüentam a sua casa. Nunca a achamos uma vítima. Seu egocentrismo é grande demais.

Ninguém, aliás, se define. Burroughs (Joseph Cross), jogado para cá e para lá entre gente irremediavelmente maluca, tenta preservar a sua sanidade, e acaba nos braços de um gay vivido por Fiennes.Terminada a sua iniciação sexual, faz cara de quem não gostou e só nos resta imaginar o horror de sua experiência, mas estranhamente continua com o sujeito (ele parece não ter escolha diante de tudo que lhe acontece, não funciona como herói ou eixo narrativo e isso deixa o filme singularmente depressivo, indo de buraco em buraco). Brian Cox, bom ator, faz o Dr. Finch com garra. Mas é um personagem tão desparafusado e desagradável que a gente mal quer vê-lo, e torce desesperadamente para que, numa determinada cena, Joseph Fiennes o mande desta para melhor com aquela tesoura.

Em suma, nada funciona, senão o final, que não revelarei, é claro - mas funciona mais como alívio pelo suplício todo haver acabado.

UM GRANDE ATOR FRANCÊS - Daniel Auteuil é um dos meus atores favoritos do cinema, nos últimos anos. Sinto que não agrada a todos, mas se entrega aos seus papéis com uma convicção impecável, mesmo quando é fatal que vá desagradar ao público: ninguém consegue gostar muito do intelectual, marido de Juliette Binoche, que em "Cachè", de Michael Haneke, é acuado por um sujeito misterioso com uma gravação em vídeo do interior de sua casa e tem um segredo muito sombrio a esconder. Talvez a frieza de Auteuil nesses papéis seja um pouco excessiva. Ele não é só disso, claro, e já o provou até fazendo a ótima comédia "O closet". Mas eu o revi recentemente em "O adversário".

Esse filme, dirigido por Nicole Garcia, é de 2002, e passou meio despercebido no Brasil, fazendo em locadoras uma carreira meio invisível também. Há quem tenha gostado, mas a crítica o comparou desfavoravelmente ao filme anterior "A agenda", que alega que tratava da mesma história com um enfoque superior (quero deixar claro que não vi "A agenda" e não posso meter o bico nessa comparação).

Auteuil dá nele mais um de seus shows de imersão na vida interior de um personagem, agora ainda mais interiorizado do que outros, visto que é um homem mentalmente perturbado, que quer a todo custo esquivar-se a verdades que lhe fazem mal, e, como vive uma vida inteiramente falsa, suas vulnerabilidades são particularmente terríveis (por vezes, o prodígio de interpretação do ator faz com que nos sintamos mal, como se estivéssemos dentro do personagem, querendo um respiradouro, uma fuga: não queremos ser íntimos desse monstro - como a história é verídica, a perturbação é maior ainda). A trilha sonora é de Ângelo Badalamenti, compositor habitual dos filmes de David Lynch, e empresta mais frieza a uma direção fria.

O mal do cinema francês é essa frieza pedante, esse cerebralismo ralo, uma mania cansativa de desconstruir e desdramatizar, de aludir mais que contar por medo do sentimentalismo e da linearidade. Há muito diretor assim, empastelando cronologias e psicologias, confundindo deliberadamente, por afetação e nada mais. Se Auteiul consegue se impor nesse filme bambo é porque é um grande ator. E ninguém perderá em conhecer sua composição.

PAISAGEM LINDA, VINGANÇA PÍFIA - Não dá para recomendar "À procura de vingança", que reúne dois astros, Liam Neeson e Pierce Brosnan, senão pela...fotografia. As paisagens usadas como locações do filme são belíssimas.

É um faroeste estranho, que veio na onda de sucesso de "Os indomáveis", com Christian Bale e Russell Crowe, que tem tido boa procura nas locadoras e de fato é competente. Realizado em 2007, dirigido por alguém obscuro chamado David Von Acken, conta a história de dois homens (Brosnan e Neeson) que tiveram algum problema no passado. Desde o início, veremos uma perseguição encarniçada sem entender, e o filme só se preocupa em esclarecê-la lá pelo fim, fazendo-nos percorrer um longo percurso que vai do Oregon ao Novo México. O raciocínio óbvio de Von Acken foi ocultar do espectador a motivação dessa busca de vingança, mas errou feio - deixando-a para o fim, criou a expectativa de uma explicação fabulosa, que não há. Tudo é bastante pífio. Se a tivesse exposto logo no início, a produção seria mais bem sucedida. Brosnan e Neeson, se fossem astros de mais carisma, talvez salvassem a coisa. Mas, num roteiro oco, limitam-se a odiarem-se violentamente.

Essa volta dos faroestes parece promissora, ainda que esses filmes não estejam fazendo grande sucesso. O público para o gênero é um pouco problemático, visto que torce o nariz para as novidades que o desfiguram, e por vezes renovar um gênero tão marcado pela tipificação e pela rotina não é tarefa para qualquer um. Não há Clint Eastwoods dando em árvores. Von Acken, no entanto, não é um diretor desprezível. E nunca se sabe, num cinema de enxurrada, de comércio massacrador como o americano quando, do meio de uma produção fracassada, poderá emergir alguma coisa boa.


Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

Mais Chico Lopes, clique aqui


Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

< ÚLTIMA PUBLICAÇÃO | TODAS | PRÓXIMA>

LEIA MAIS


GENEROSIDADE E SARCASMO NA NARRATIVA DE FERNANDO MARQUES, por Geraldo Lima.

Amizade de fachada, por Noga Lubicz Sklar.

Últimos post´s no Blog Verdes Trigos


Busca no VerdesTrigos