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8 de Novembro de 2008

Complexo de vira-lata, por Noga Lubicz Sklar

"Ele escreve seus próprios livros!", afirmo para o meu marido Alan enquanto enumero, entre tantos outros motivos, minha preferência política por Barack Obama. Olho pra ele, ele olha pra mim, e caímos na gargalhada os dois, onde já se ouviu tamanho absurdo, "escreve seus próprios livros"? Uai, gente, não é isso que um escritor faz? Escrever? Mas bem, hum, tudo isso já está no passado, a eleição de Obama, quero dizer, não o mal de um mercado literário onde raros são os escritores que escrevem seus próprios livros, ih, já estou me repetindo, insistindo num estado de coisas que a bem da verdade não deveria espantar ninguém.
Outro dia mesmo a minha nova editora explicava seu trabalho de, hum, editora, me contando que os livros que chegam para publicação vêm completamente crus, com erros terríveis, enfim, impublicáveis. E que depois de editados, imaginem, o autor ainda os altera, isto é, "corrige" a edição, voltando muitas vezes aos erros de antes e por aí vai, euzinha aqui num estado terrível de ansiedade e curiosidade suspensa pra descobrir como é que vai ser comigo (refiro-me à revisão das "Crônicas de Ulysses"), será que o que escrevo é assim também, ruim a um ponto de, além de rejeitado por boa parte das grandes editoras, ainda ter que ser completamente reescrito? A conferir que se for o caso, prometo confessar pra vocês, mas de volta a Obama que essa coisa de se perder do assunto no meio do texto tampouco está com nada. ==>>> LEIA MAIS

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13 de Outubro de 2008

O seu é o limite, por Noga Lubicz Sklar

"EU TENHO LOÇÃO DE RIDÍCULO", declara em alto e bom som Josirene da Silva - a mulata burra e bunduda do cabelo duro e nariz achatado de Black Music - ao seu interlocutor indeterminado: eu? você? ela mesma segundo alguns?, num clássico fluxo funkado de consciência, derramado e truncado e gritado, belamente intensificado nas letras garrafais que atravessam as 37 páginas finais do livro.

Com a breve exceção de um trecho em minúsculas sussurrado, confirmando com isso uma velha conhecida regra de todo internauta no estilo adotado. Mas ops. Peraí. O sujeito a quem se dirige (falando mais de sexo, mas também de outros encontros) é fatalmente um desnomeado do sexo masculino, como indica um eventual "meu querido" que logo de cara me exclui, pelo menos emocionalmente, da caudalosa parada impressionista. Ou impressionante. Do acalorado conflito musical resultante, em ritmo de um rap louro alucinante, nem Duque Elintão escapa, tá ligado? "Zoou comigo, acaba no microonda".

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3 de Agosto de 2008

O que há de novo está no ovo, por Noga Lubicz Sklar

"Faz parte da natureza humana quando está diante de uma coisa nova, dizer: "É uma merda".", afirma Paulo Coelho, meu herói desta e de todas as outras semanas, entrevistado em Paris por João Paulo Cuenca, ah, bom: não se trata aqui de nenhuma ampla, geral e irrestrita anistia intelectual tardia concedida ao Mago, gente, não, apenas de uma autêntica conveniência marqueteira, estando o Cuenca em Paris e, nem faz tanto tempo assim, dividindo sala com Coelho na mesma editora, a tradicional porém moderníssima Agir.

Outras duas sacadas geniais de Coelho o Noga Bloga já pratica faz tempo: disponibilizar por princípio suas obras na internet ["Só tenho a ganhar com a pirataria. As pessoas lêem o início no computador, depois acabam comprando o livro"] e a política inovadora de "privacidade zero" no blog. Bem. Hum. Eu entendo. Compartilhar da privacidade do Paulo é uma coisa. Da minha é outra muito diferente. Não? Bem. A gente nunca sabe. Quem sabe em breve Coelho e eu poderemos também compartilhar a sala, hein? Porque o segredo da prosperidade, vocês sabem, não é a olímpica e já clássica data mágica chinesa - oito de agosto de dois mil e oito às oito horas e oito minutos - mas sim, vamos combinar: apostar na baixa. Pra realizar o lucro na alta, é claro. ==>>> LEIA MAIS

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12 de Maio de 2008

Isso é ridículo!

Vocês me desculpem, eu não queria tocar no assunto. Bem. Todo mundo sabe que o Mecenato Moderno, minha proposta generosíssima de patrocínio a blogueiros, contendo inclusive um selo editorial para literatura de boa qualidade exercida online, foi recusada pelo Ministério da Cultura. Até aí tudo bem que eu já tinha me conformado, cancelado o site e aposentado o sonho não só de sobreviver blogando, mas de possibilitar o mesmo a outros blogueiros. Pois bem. Acabo de receber carta oficial do MinC justificando a recusa. Segue:
"...a concessão de bolsas para "blogueiros" (aspas deles) é vedada pela legislação, por configurar-se em utilização de recursos públicos para aumento de patrimônio de pessoa física ou pessoa jurídica."
Agora vem cá, alguém me explique qual é a diferença entre o artista blogueiro e qualquer outro tipo de artista que neste país só vive de patrocínio oficial. Hein?

[concordo com a NOGA]

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27 de Abril de 2008

Vida de autor(a) , por Noga Lubicz Sklar

Não sei se é interessante a tendência hoje em dia dominante de se falar demais da própria vida, transtornando a literatura num caldo insossamente autobiográfico, coisa que sim, eu mesma faço e sem vergonha nenhuma. Esclarecer, esclarece. Mas limita a fantasia alheia, sei lá, perde o mistério e quem sabe a graça. Por outro lado, restringe consideravelmente a gulosa possibilidade de uma demolição futura da personalidade, processo sofrido em mais alto grau por Ann Hathaway, esposa de Shakespeare e praticamente uma desconhecida da história, vítima preferida dos adoradores acadêmicos do bardo. O assunto aparece revitalizado por Germaine Greer em "Shakespeare´s Wife", resenhado na edição desta semana do suplemento literário do NY Times. Tudo bem que muito do que se sabe da vida elizabetana não vem de fatos historico-antropológicos mas... das peças de Shakespeare, e nem nas páginas de Ulysses Ann Hathaway escapa de sua imagem tradicional como musa inspiradora do marido: a megera (in)domada, pra quem o escritor deixou de herança não mais do que sua segunda melhor cama. +++++++

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16 de Março de 2008

Uichiquibeijmaijpuunapuuhuc!, por Noga Lubicz Sklar

Este episódio Circe do Ulysses é tão complexo que dá pra ver nele como Joyce se enrolou. É muito interessante: a dimensão do impacto criativo do artista retém o seu frescor nas loucuras do texto.
Tenho aqui em casa, vocês sabem, quatro versões principais do livro (fora capítulos esparsos na web e milhares de anotações): duas em inglês (uma impressa e uma em pdf) e duas em português, sendo a do Houaiss impressa e em pdf, o que facilita as idas e vindas, a busca de palavras através do livro, ocorrências repetidas e, agora em Circe, discrepâncias entre elas, ou vocês pensavam que eu guardava tudo isso na cuca? Ho ho ho, gente, assim nem Joyce. O curioso é que Houaiss seguiu a versão que tenho impressa e Bernardina seguiu a versão que tenho em pdf, o que dá uma visão quase completa da coisa.
Joyce, a gente nota, acha às vezes que exagerou na radicalidade. E volta atrás. São palavras inventadas, frases, falas inteiras cortadas ou acrescentadas, porque embora a minha mente lógica queira acreditar que a mais complicada veio primeiro não dá pra garantir nada, já que em Joyce, todo mundo sabe, a complexidade tendeu a se agravar até desembocar no quase incompreensível Finnegans Wake. Há momentos no Ulysses que são a prévia perfeita disso - é Burgess quem aponta -, como num dos paragráfos finais de Nausicaa que resume em meia dúzia de frases todo o pensamento do personagem até ali. Ou ainda no inglês recém-parido do Gado misturando sons de não sei onde pra resultar num idioma pra não sei quem muito joyciano mesmo, fecha essa matrafalaca. Ops. Falamatraca. ===>>> LEIA MAIS

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28 de Fevereiro de 2008

A arte imita a arte, por Noga Lubicz Sklar

Depois que descobriram um novo monstro marinho - isto é, um velho - numa ilha da Noruega, não vou me espantar nadinha se afirmarem que o de Loch Ness existe mesmo. Isso, claro, devido às descobertas tecnológicas de um Michael Crichton, que nos permite fertilizar dna de fóssil. Já estou pagando pra ver.
Porque se a gente deixar, um clima hiperreal de pesadelo toma conta de nossas vidas, e hoje nem é sexta-feira treze. É quinta. É fevereiro. Embora o dia de amanhã, todo mundo sabe, nem vai existir, calma, gente: é ano bissexto e, vocês sabem, outro assim só daqui a... sei lá. Nem quero saber. Como esse porteiro de Copacabana, coitado, espancado quase até a morte pelo simples fato de existir e ocupar um lugar no mundo, lugar errado, isto é, no prédio comercial fechado à noite. Ou aquele prisioneiro no Iraque, um cidadão comum torturado pelo simples fato de estar ali no carro, ou o garoto atropelado, ou aquele soldado queimado e esquartejado por seus colegas pelo simples comando da mente doente - síndrome pós-traumática - vítima e algoz afundando no mesmo barco, afinal de contas, são atores ou veteranos recuperados? Ou como o finado Tim Lopes que não tinha síndrome nenhuma nem estava no lugar errado, mas foi espancado até a morte, queimado e esquartejado assim mesmo porque, francamente, muito errado mesmo anda o nosso mundo. Ou nossa visão distorcida dele. E o nosso Tim, imaginem, nem foi candidato ao Oscar de ator estrangeiro. Injustiça. ===>>> LEIA MAIS

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18 de Fevereiro de 2008

Vergonha de quê?, por Noga Lubicz Sklar

"Jim, how beautiful you are!"
de Nora Barnacle a James Joyce, morto, pelo visor do esquife

Que por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, todo mundo sabe. Mas por trás de uma grande mulher, existe o quê? Um homem pequeno? Um ego masculino domado? Amansado, sim, mas a pão-de-ló, cama, cozinha e roupa lavada, café da manhã na cama. Pequeno? Talvez. Mas, certamente, raro. Nem sempre paciente.
"Bem, Jim está escrevendo seu livro. Vou pra cama e este homem se senta no quarto ao lado e continua rindo do que ele mesmo escreve. Então eu bato na porta e digo, Jim, olha, pára de escrever ou então pára de rir." É meia-noite, num certo apê em Zurique. Mas pelo que sei, poderia ser aqui, ao meio-dia, nesta sala apertada do Alto Leblon, e esta fala na boca do Alan, é, gente. Sim: é duro ser Noga e Nora ao mesmo tempo. ===>>> ++++++

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10 de Fevereiro de 2008

Ah, se eu soubesse, por Noga Lubicz Sklar

Frase enigmática que por muito tempo intrigou os intérpretes do Ulisses de Joyce, "Women won´t pick up pins. Say it cuts lo." - Mulher não apanha alfinete. Diz que corta o am. (ou em outra opção de tradução, espanta o aman) - esse espanta o aman, ou corta o am, não passa de uma boa mandinga: mulher não apanha alfinete no chão porque espanta o amor, cuts lo(ve), deu pra entender? Bom. Desculpe aí se o mistério acabou de perder a graça.
Ah. Pena que eu não soubesse disso. Já fiz a mandinga contrária, gente, é: me acreditem. E me dei muito mal. Funcionava assim, envolvendo pétalas de três rosas vermelhas - e vela de sete dias, sem fita amarela, e bilhetinhos cortados com o nome do amado - fervidas em água com mel, você besuntada com aquela mistura melada antes do primeiro encontro e o bilhetinho nomeado debaixo da vela acesa de sete dias. Podia até ser que não resultasse em fogo na casa, mas no coração de alguém, jamais falhava. E comigo tampouco falhou: fiquei com o sujeito insistindo na minha cola, bem depois de ter decidido, de ter tentado ardentemente, me afastar para sempre dele, ah! se eu soubesse o macete do alfinete. Apanhava do chão quantos fossem preciso.

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30 de Janeiro de 2008

Cadê os nacionais?

O Globo - 30/01/2008 - por André Miranda e Miguel Conde
Duas palavrinhas devem ser acrescentadas à velha máxima de que "brasileiro lê pouco". Levantamento feito pelo jornal Globo junto às principais editoras do país, e ilustrado na pilha de livros ao lado, mostra que apenas um nacional figurou entre os dez livros de ficção adulta mais vendidos no Brasil em 2007: Elite da tropa" (Objetiva), uma obra cujas vendas foram alavancadas pelo filme-sensação "Tropa de elite" e que possui o apelo extra de ser uma história real "disfarçada" de ficção. Portanto, se é verdade que o brasileiro lê pouco, parece mais claro ainda que o brasileiro lê pouco romance brasileiro. O desempenho comercial da ficção brasileira parece ainda mais fraco após uma olhada na lista de não-ficção, na qual a presença nacional é muito maior: em 2007, houve semanas em que até seis livros brasileiros apareciam entre os dez mais. No ranking de ficção, Elite da tropa ficou em oitavo, atrás de obras de autores de Afeganistão, Austrália, Índia, Estados Unidos e Espanha. >> Leia mais

Leia também: Assunto relevante, no Bloga Noga

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26 de Janeiro de 2008

Paradigmas, por Noga Lubicz Sklar

"A arte" - afirma A.E., o poeta George Russell, no nono episódio (dialética) de "Ulisses" - "deve nos revelar idéias, essências espirituais informes. A questão suprema sobre uma obra de arte é a profundidade da vida que brota dela."
"O resto" - conclui - "é especulação de um colegial para outros."
Bons tempos. O que é que escapa hoje em dia ao rótulo maldito de pura especulação? Hein? Pelas mãos de quem faz tempo já passou de seus tempos de colegial? Não a arte. Certamente que não. E o espírito? Ainda menos.

Ah. O espírito. Que perda de tempo. A vida esotérica não é pra qualquer um, diagnostica Joyce - pela irônica boca idealista de Stephen Dedalus, seu alter-ego jovem quando artista - antes que a dor da vida o transforme num Bloom traído qualquer. Entre ovos áuricos cintilantes e um corpo de carne que muda, completamente, a cada seis meses - ops. exagero. hoje em dia, todo mundo sabe: a cada seis anos - J.J. oscila hilário entre crente e sarcástico, entre o ridículo e o radical. ==>> LEIA MAIS

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19 de Janeiro de 2008

Um livro que ninguém lê, por Noga Lubicz Sklar

"não se preocupe, não sou tão intelectual quanto pareço. nunca li Nietzsche nem Hegel,
e o Ulisses de Joyce dorme há anos na minha cabeceira, esperando eu ter coragem de atacar.
no entanto, já vi muita coisa... os filmes velhos todos, de Aurora a Caligari. e Fred Astaire e Boggie...
depois Fellini, Almodóvar..."

Noga Lubicz Sklar em "Hierosgamos"

"Eu nunca li "Ulisses" de Joyce e provavelmente nunca o lerei", afirma com uma espécie besta de orgulho o francês Pierre Bayard, autor de um volume fininho e baratinho intitulado "Como falar de livros que não lemos?". Mesmo assim ele se considera apto a fazer referência a Joyce em suas aulas, já que está por dentro do assunto e da "situação" do épico romance. Azar o dele.
Não dá pra negar que uma breve sinopse de Ulisses tem lá sua breve utilidade, o que não substitui em hipótese alguma o prazer de mergulhar plenamente nele. Digamos assim: o enredo é um roteiro de viagem, um bem-bolado folheto de propaganda da agência com uma ou duas páginas e uma bela imagem na capa. Mas quem imagina que só isso basta, que já provoca o tesão - pessoal e insubstituível - da descoberta de um mundo novo, uma outra cultura, paisagens exóticas e o clima excitante do desconhecido, tsk tsk: se ilude. É como, mal comparando, visitar o Louvre pela internet e acreditar-se um connoisseur de história da arte. Ou se contentar com a Monalisa em foto de celular.
Vou contar pra vocês como é que estou lendo Ulisses. Sim, no presente: estou lendo.

Convite da NOGA: Acompanhe online a criação do meu próximo livro: Crônicas irônicas de Ulisses.

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13 de Janeiro de 2008

A América contra a caretice, por Noga Lubicz Sklar.

"Não existe uma América negra. Não existe uma América branca. Não existe uma América latina ou uma América asiática. O que existe são os Estados Unidos da América", prega o mantra comunitário de Barack Obama a favor de um mundo civilizado.
"Maravilhoso, não?", comenta Ali Kamel em seu artigo "Obama" no Globo. "Tudo isso escrito e publicado por um político negro nos EUA. Que os Estados Unidos tenham um candidato negro, viável, e que pense assim, é em si um sinal de que se está mais perto do sonho de Martin Luther King", continua o Ali. E de alguns outros sonhos também. Um sonho ameaçado, no entanto, pelo conservadorismo americano, que embora dê sinais de algum desejo de mudança, ainda persiste na caretice. E persiste apesar de atitudes progressistas, que plantaram sua semente de modernidade há muito tempo atrás.
Não sei vocês, mas eu não sabia disso: o Ulisses de James Joyce, banido nos Estados Unidos sob a acusação de obscenidade, só foi publicado, em 1933, graças à sensibilidade do juiz federal John M. Woolsey.

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29 de Dezembro de 2007

Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis

Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis

de Nathan Englander (tradução de Lia Wyler; Rocco; 224 páginas; 36 reais)

Publicado nos Estados Unidos em 1999, esse livro foi uma das mais aclamadas estréias dos últimos tempos. Englander foi comparado a outros grandes escritores judeus, como Bernard Malamud, Saul Bellow e Philip Roth. E ele faz por merecer essa admiração crítica. Seus nove contos visitam o universo judaico com uma ironia que não dispensa o sentimento da tragédia histórica, como se vê em O Vigésimo Sétimo Homem, sobre um grupo de escritores iídiches que são torturados e mortos na União Soviética de Stalin, ou no conto-título, sobre as dificuldades sexuais de um casamento ortodoxo.

 

[Termino o ano de 2007 com a leitura deste lançamento do Nathan: um presente da Noga (isso mesmo, ela surpreendeu-me com este livro), vou conferir letra por letra. Nathan Englander é matéria de capa do Prosa & Verso, do Globo, de 29/12, com entrevista e mil elogios]

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Segredo ou sagrado?, por Noga Lubicz Sklar.

Segredo ou sagrado?
"Nunca aceitei esse ranço de obediência na relação do artista com as multinacionais. De eles saberem mais, de terem o poder de orientar. Eu sempre disse não, e eles sempre respeitavam esse não. Porque eu sempre fiz muito bem tudo o que quis."
Maria Betânia, imperdível, em entrevista ao Caderno Ela de O Globo

Na mesa de almoço em família comunico ao meu tio intelectual minha firme intenção de atacar o velho Ulisses, de James Joyce — um livro que é meu livro de cabaceira, ops, cabeceira, há mais de 5 anos* — nestas férias de fim-de-ano. Já tendo lido, com um prazer inenarrável (ui!), as primeiras cem páginas, não consigo entender as razões para ter hesitado tanto. Deve ser o marketing, ou no caso, o anti-marketing, confirmado por minhas jovens primas: é chato.
Mas, gente, se tem um adjetivo que não se aplica, de jeito nenhum, a esse ícone da literatura, é este. Chato? Pode ser incomum. Pode até ser meio difícil pra quem não tem o hábito da boa leitura, se limitando aos novos lançamentos, resenhados e elogiados por razões muitas vezes obscuras (pra não dizer comerciais, mesmo). Mas chato nunca. Instigante. Poético. Ousado. Isso sim. Nunca gratuito. A gente sente por trás dos neologismos, das citações, da ordem expressa das palavras, a clara intenção do escritor. Nada. Nada de preguiça de (re)escrever ou pressa de publicar. Por enquanto estou lendo, claro, a tradução de Antonio Houaiss. E por falta de opção melhor confiando nela, na erudição do tradutor, na compreensão ampla que ele teve do original, coisa que certamente eu jamais alcançarei. Porque meu passo seguinte, pasmem, é perscrutar o original que encomendei na Amazon. Que pretensão. =>> LEIA MAIS

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15 de Dezembro de 2007

Trem da Cultura

Para meu espanto e decepção dos envolvidos, o Mecenato Moderno foi indeferido pelo MinC na 148ª CNIC. Nosso MeMo foi um entre os oitocentos projetos analisados em dois dias de reunião. Sim, pasmem, oitocentos: descontando o almoço da galera, dá em média um projeto por minuto. E considerando a complexidade requerida para submeter as propostas, com todas as planilhas, justificativas, orçamentos e organogramas envolvidos — eta eficiência, sô —, sobram menos de dois segundos para cada página entupida de dados técnicos.
Sorry, folks, mas nosso futuro brilhante acaba de ficar incerto. (Noga Bloga)

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Centenário, por Noga Lubicz Sklar.

Esta crônica, publicada originalmente em 15 de janeiro de 2007 no Noga Bloga, foi responsável por minha seleção para a Oficina de Crônicas da Flip, e é com ela que homenageio, hoje, o centenário ilustre do dia. Obrigada por sua inspiração, Mestre Oscar. Nisso e em tudo o mais.


Hey, Óscar
Em minhas mais íntimas fantasias, me sinto igualzinha a qualquer celebridade (celebridade verdadeira, digo, como Picasso, Fellini, Caetano. Pina Bausch e outros do nível, nada de Ilha de Caras, por favor, que dessas não chego nem perto. Haha. Vocês notaram. Deixei o Philip Roth de fora, porque aí já seria pretensão demais). Não vejo diferença nenhuma entre o talento deles e o meu, mas como personalidade, é óbvio que o buraco é mais embaixo. Não sei o que me falta, gente: talvez um pouco mais de loucura, de ousadia, de um não-ligar-pro-que- alguém-pensa-de-mim. Ainda não cheguei lá mas vou me arrastando, penosamente, nessa direção. =>> LEIA MAIS

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8 de Dezembro de 2007

Que livro é esse?, por Noga Lubicz Sklar

Promoção inédita no Globo premia com um exemplar de "Eu sei que vou te amar", novo livro de Arnaldo Jabor, as sessenta melhores respostas para a pergunta "Qual a maior loucura que você já fez por amor?" enviadas para o endereço promoglobo@oglobo.com.br.
Vou à Cultura e descubro que não, não é erro do jornal. O livro acaba de ser lançado pela Objetiva, mas uai, gente, não era esse o nome de um filme de Arnaldo Jabor? Que, se não me engano, deu prêmio em Cannes a uma muito jovem Fernanda Torres?
Normalmente o trajeto do livro ao filme se dá na direção oposta, e me acreditem: é a melhor coisa. Ter visto o filme interfere demais na relação muito íntima, quase sexual, que o leitor estabelece com o livro através da imaginação.
Tudo bem que a forma escrita, o ritmo, a escolha da palavra certa e da ordem certa das palavras contribui bastante, o sentir na pele o empenho do autor, o gozo pleno da literatura. Bah. Coisa mais antiga, do tempo assim, digamos, de Flaubert, como muito bem mostra este post do Digestivo Cultural. Porque ninguém tem mais tempo pra isso, fala sério: vinte páginas escritas em um mês? E o mercado, gente? E o mercado? Além do mais, a imposição da imagem hoje em dia é tanta, e tão intensa, que tanto faz a linguagem, e é aí que o livro-depois-do-filme perde um bocado da graça. Pelo menos é o que estou sentindo ao finalmente ler, com considerável atraso, aquele que é considerado um dos melhores romances do século, hum, qual? Vinte e um? (É meio cedo pra isso, né não?) Nele, se realiza a contento a descrição dos personagens, das paisagens e ambientes, a vivacidade da trama, todos brilhantemente traduzidos em filme no maravilhoso "Reparação", baseado no romance homônimo de Ian McEwan - nossa, alguém já me ouviu elogiar um filme assim? Acho que eu estava de bom humor naquele dia ou, no mínimo, muito bem acompanhada, me sentindo bem-amada.==>> LEIA MAIS

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2 de Dezembro de 2007

O reincarnado da Avenida Parque*, por Noga Lubicz Sklar

Nathan Englander merece o benefício da dúvida, e não só por ser este gato aí da foto. Desculpem. Nunca antes aqui no Noga Bloga publiquei a foto de um autor, mas esta estava lá, dando pinta no artigo do San Francisco Chronicle, pedindo pra ser usada. Não resisti, dá pra entender porquê. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter publicado seu primeiro livro aos 29 anos (nos EUA, em 1999) - esses contos que acabei de ler e que podem ser resumidos numa única constatação: o texto não faz por merecer o excelente título, "Para alívio dos impulsos insuportáveis" -, e ter recebido por ele não sei quantos prêmios, a ponto de ser considerado pela mídia um rock-star da literatura. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter tido seu primeiro romance, publicado este ano, na lista dos 100 melhores livros de 2007 do New York Times. Não é pouca coisa.
Nathan Englander se acredita intenso, brilhante, e além de tudo isso, a reincarnação da literatura iídiche, intensa e brilhante, de Isaac Bashevis Singer e Bernard Malamud. A coisa é tão óbvia que depois de ter comentado com o Alan que o cara pretendia ser o novo BS ou BM dei de cara com o mesmo tipo de comentário na resenha do New York Times.  ===> > >  + + + + +

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19 de Novembro de 2007

O que vem por aí, por Noga Lubicz Sklar.

"Este é um romance de ficção. Com exceção das partes que não são."
Michael Crichton

O que ele faz nem é considerado literatura, mas Michael Crichton não está nem aí. Segue em sua trajetória alarmista de sucesso iniciada com "Parque dos Dinossauros", agitando o cartão vermelho do futuro no nariz de quem discorda de sua visão do mundo. Entre os quais não me incluo, e a prova disso é que até me arrisco, sob o risco de desprezo dos meus pares, a citar seu último romance "Next" na coluna "Estou lendo" do meu blog. A partir dessa decisão me comprometi com algum comentário, e pra ser honesta, me espantei ao encontrar o livro resenhado no NY Times. Metendo o pau, claro.
Michael Crichton discorda do pensamento dominante e por isso - e também por seu trabalho de pesquisa e a ousadia de ir contra a corrente do lucro que permeia hoje em dia o idealismo ambiental -, tem a minha simpatia. Além disso, domina o ritmo frenético da prosa e a política da linguagem, o que garante, pelo menos, uma boa e bem revisada diversão. No original em inglês, pelo menos.
Com sua proposital ambigüidade, Crichton irrita críticos e leitores. Mas provoca a reflexão quando a gente descobre, por exemplo, que o coelho fluorescente de Eduardo Kac, um dos ícones da arte biogenética que ele descreve, é pura realidade, não delírio deslavado de um ficcionista de araque. O Alan, por exemplo, não sabia disso, mas Eduardo Kac, vocês sabem, é daqui do Rio e o coelho verde dele, pra nós, não é novidade nenhuma. ==>>> + + + + +

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14 de Novembro de 2007

Oh, Yoko! , por Noga

"Our life, together, is so precious, together, we have grown, we have grown."
John Lennon

É tão fácil para fãs dos Beatles, entre os quais me incluo, que já virou clichê há muito tempo: culpar Yoko Ono pelo fim do sonho. De todos os nossos sonhos. Me admira é Daniela Thomas e Arnaldo Jabor caírem nessa. Yoko como artista não chega aos pés de Lennon, tá certo, mas vai saber o que John viu naquele dia, naquela galeria de Londres, nos pés da mulher baixinha trepada na escada com um martelo na mão. Alguma coisa muito bela foi, bela a ponto de durar, inspirar, capitular. Transformar um homem revolucionário, mais famoso que Jesus Cristo, em amoroso househusband, já pensou? Não é pouca coisa. Deste encontro veio a mensagem de paz que o Jabor menospreza, algumas das mais belas canções de amor que a gente conhece, um belo filho e um trágico desfecho. Ou a gente acha que o John era gênio ou que o John era ingênuo a ponto de se entregar à "víbora", pobre Yoko. Imagino o assédio assassino dos fãs se até eu, que não sou ninguém, já fui vítima disso. Yoko, garanto, pouco liga: foi amada, idolatrada, salve salve, por um dos homens mais cobiçados da história. Bom pra ela que até hoje ainda se alimenta deste grande amor. Ela merece. Já o veneno de quem a detesta sem nenhum motivo nem sai da língua gordurosa de quem o destila. Cuidado aí pra não mordê-la. (Noga Bloga)

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9 de Novembro de 2007

Genealogia da repressão, por Noga Lubicz Sklar.

"Uma equipe de biólogos franceses isolou um "gene Mestre", que faz as pessoas tentarem controlar o outro ... O estudo mostra que o gene está presente não somente nos que gostam de mandar, mas também nos que gostam de ser mandados, pessoas extremamente inclinadas a adotar modas de todos os tipos — um comportamento "fashion" —, e a suprimir opiniões e preferências que não são compartilhadas por seu grupo." Michael Crichton em "Next" (tradução livre do original em inglês)

A maioria das pessoas que eu conheço não confessaria nem sob tortura que um dia leu Michael Crichton. Nem eu. Mas a verdade é que, pra relaxar, gosto de ver filminhos, e se a coisa estiver muito preta, ler livrinhos, vocês sabem, só pra distrair.

Por conta desses enganos é que caí na esparrela do último filme de Meg Ryan, "In the land of women". Gente, tem alguma coisa de muito errado lá com a eterna cool girl — do muitas vezes repetido "Mensagem pra você" —, e até o fim do dvd, entre uma cochilada e outra, não descobri o que é. Não sei se é a idade (olha o coxo, etc, etc), ou uma plástica mal-feita, ou se é má interpretação mesmo, numa comédia de equívocos que junta maus atores a um roteiro ruim, passando inevitavelmente por uma péssima direção. Fujam. ++++++

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26 de Outubro de 2007

Balança mas não cai, por Noga Lubicz Sklar.

Crash, ou melhor, ColisãoSe não me engano, foi Sérgio Rodrigues quem disse que o filme era chato e o livro, ilegível. Sérgio diz no post que o filme foi dirigido por David Cronenberg, mas pelo que sei, é na verdade de Paul Haggis, um diretor badalado que em 2006 arrebatou longa lista de prêmios, Oscar de melhor filme e roteiro original. Me lembro de ter gostado do filme, mas essa de roteiro original me confundiu: é baseado no romance homônimo ou não? Ah, bom, santo google que resolve todas as dúvidas, mas o fato é que o filme de Cronenberg não consta em lugar nenhum: não saiu em dvd, nem está no IMDB, ops, procura daqui, procura dali, achei: eis a diferença entre uma cronista que chuta e um jornalista que apura, sendo eu a primeira e o Sérgio, claro, o último, caramba, esbarrei sem querer numa polêmica das boas.
Tudo isso era só pra dizer, enquanto eu pensava que "Crash" — o livro ilegível de J. D. Ballard que eu não li, que o Sérgio odiou, mas muita gente boa adorou: o sujeito é badalado à beça, tem até ballardosfera na internet — é que tinha sido filmado por Haggis e resultado num filme imperdível... ou melhor, pra afirmar que outro livro ilegível como "O doce veneno do escorpião" tem a chance de resultar, pela intervenção talentosa de Karim Aïnouz, num filme decente e até relevante. Diz o futuro roteirista, diretor de "O céu de Suely", que "o filme vai retratar o submundo da prostituição em São Paulo", já fui gostando da expressão "submundo": dá uma certa esperança de colocar as coisas em seu devido lugar.
Agora, não vão vocês me culpar de ter a boca podre se, daqui a um par de anos, alguém fizer um filme homônimo, com tema semelhante e roteiro original (como no caso do segundo "Crash") — bancado pela Globo e estrelado pela estonteante Camila Pitanga no papel de Bebel —, jogando a história real da Bruna no esquecimento e arrebatando kikitos. Trata-se, aparentemente — e a julgar pelo sucesso de público das duas "damas" —, de tema apaixonante, embora a paixão amorosa fique pra sempre fora dele. Isso enquanto, na vida real (na minha, pelo menos), é a única coisa que verdadeiramente interessa.

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21 de Outubro de 2007

Infiel, por Noga

Infiel: Ayann Hirsi AliEu estava certa de já ter falado aqui no blog sobre esta força em forma de mulher que é Ayaan Hirsi Ali. Mas parece que me enganei, procurei, não achei nada. O fato é que ela já tinha chamado a minha atenção há mais de um ano, quando li artigo não sei onde, provavelmente no New York Times — é, foi —, sobre a autobiografia que ela estava lançando. Esta bela mulher aí da foto, acreditem, teve extirpado o seu clitóris — este assunto sim, já abordei várias vezes, e nunca é demais insistir — mas não sua fibra, sua garra, sua disposição acima de qualquer ameaça para mudar um absurdo estado de coisas.
"Defendi sim, o direito de ofender, dentro das regras do jogo democrático, claro. A democracia é isto: o direito de dizer tudo o que se pensa, inclusive expressar idéias que podem ser agressivas ou ofensivas a outros. Só assim existe um verdadeiro debate. As idéias têm que ser livres. As sociedades que censuram as palavras são aquelas nas quais os conflitos são resolvidos pela violência, pelo desrespeito à liberdade dos indivíduos", afirma ela, no artigo de Marília Martins publicado hoje no Globo.
Ayaan Hirsi Ali mantém um blog e já protagonizou histórias incríveis. O diretor do filme "Submissão", cujo roteiro sobre mulheres muçulmanas vítimas de violência doméstica ela escreveu, foi assassinado na rua em Amsterdã. No momento Ayaan vive nos Estados Unidos, segundo ela o país mais democrático e livre que existe. Seu livro autobiográfico "Infiel" acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras.
Ou vocês queriam que eu perdesse meu tempo para explicar que tudo bem, existe o vandalismo, mas estas vacas de fibra da Cow Parade já nasceram condenadas à decadência: um conceito fraco, mal executado, e que não resiste ao sol e à ação natural do tempo?

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7 de Outubro de 2007

Seja um MEMO* você também, por Noga Lubicz Sklar


A gente cria. Escreve. Publica. Livros. Blogs. Comunidades. Mas no vamos ver, vamos viver de quê? A coisa, entre outras coisas, tem me encucado. Andei buscando uma solução. E a encontrei.
Fiquei devendo pra Martha Medeiros no outro dia mas me redimo hoje, com citação e tudo. (Morde e assopra é comigo mesmo. Mas não é por ser puxa-saco, ou por insegurança, ou por pena. Nada disso. É que digo o que penso, e se for de amigo e não for o melhor, o mais elogioso, logo me arrependo. Não de dizer a minha verdade, hum, mas de pensar e sentir aquilo, fazer o quê.) Na Revista deste Domingo, Martha mostra porque é mesmo uma deusa, vai lá. Concordo com ela em conceito, exemplo e atitude, vejam só: "Não se sinta culpado por pensar em si próprio. Cuide do seu espírito, do seu humor. Arrume seu cotidiano. Agora sim, vá em frente e mostre aos outros como se faz."
Detto e fatto, bem, não é tão fácil. Arrumar como? Diz o Globo que existe escassez de 20 mil engenheiros no país, em todas as áreas. Bem. Nem todo mundo quer (ou pode) ser engenheiro. E a vida de artista, como é que fica? De escritor? De blogueiro? Vender livro, já se viu, dificilmente é solução pra bolso. Emprego em jornal, nem pensar, como disse uma amiga no outro dia: "nem dando pro Xexéo", ah, tá bom. Melhor deixar pra lá. A gente tem o que dizer, vai e diz: escreve no blog, e não é coisa pouca. Exige pesquisa, criação, revisão e edição, fotos, links, cuidado. Ou vocês pensam que só leva um segundo? Não, gente. É trabalho, trabalho sério. Do bom. Vai daí que eu já tinha pensado: com essa audiência toda, imagine se cada um que te curte resolve te patrocinar, hum, digamos, com cinco reais por mês. Nem falo daquelas visitas todas que o contador mostra, não mesmo, falo dos 10 por cento que te lêem mesmo, ficam mais de uma hora contigo todo dia, sacou? Hum... um, dois, cinco reais, mas só quando a gente quiser, se der vontade de apreciar um texto bom, sem vínculo ou compromisso. Gostou? Patrocine. De NY, comenta aqui no blog a Simone K. : "Como sabe o doar aqui, ou a falta dele, pode até ser um motivo de vergonha. Trabalho voluntário é a forma mais popular, não? Se a gente não faz, o vizinho reclama."
Ah, sim. Brasileiro não dá nada de graça pra ninguém, mas bem que a gente podia mudar um pouco isso. Um amigo meu, artista como eu, achava humilhante um link que eu tinha aqui no blog, pra doações no PayPal: acabei apagando. Mas continuei pensando: uai, gente, humilhante por quê? É humilhante ser apreciado? Ser pago por seu trabalho? Já faz um bom tempo que me debato com a questão; como "trabalhadora da luz", o dilema era o mesmo: trabalhar pode; cobrar não. E nesses tempos de ascensão, quem é esotérico sabe bem do que estou falando: fala-se muito em mudanças radicais, em um novo ambiente de altíssima energia onde cada um só faz o que lhe dá prazer. Muito belo. Muito bom. Mas a pergunta persiste: se o nosso mundinho tresdê ainda funciona à base de dinheiro, como é que se vai sobreviver? Novas formas de viver? E quais seriam? Hein?
A web é uma resposta, com certeza. Uma mente coletiva: troca de idéias e ideais, um celeiro criativo de tudo. Dos engenheiros (a troco de salário, gente, pra eles não falta emprego!) vêm as ferramentas. Dos artistas, o conteúdo: todo mundo usa e abusa, e online, se doa de graça, não tem o menor problema. A web já está no futuro, no admirável mundo novo onde a gente só faz o que quer, e não precisa de dinheiro: é muito maior do que o Second Life. It's the One and Only Life.
Eu penso, gente, e penso muito. Vai daí que surgiu essa idéia de patrocínio voluntário de blogs. Gostou? Patrocine. Não espere o governo, o bolsa-família, o Ministério da Cultura, o prêmio, a lei, a corrupção. Nem precisa de projetos complexos, de concorrência ou aprovação. Gostou? Patrocine. Simples assim.
Pode ser que funcione. Pode ser que não. Mas é, certamente, uma opção. Faço como a Martha diz: penso em mim, começo por mim, ensino como se faz, e... bem. Espero que façam o que eu digo. E faço. Bom domingo pra vocês, e pra mudar de vida hoje mesmo, seja um MEMO* você também.

* MEMO: mecenatomoderno.org, um jeito web de mudar sua vida, e a vida de quem você curte. Visite o site. Participe da Comunidade.


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