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O reincarnado da Avenida Parque*

por Noga Lubicz Sklar *
publicado em 2/12/2007.

Nathan Englander merece o benefício da dúvida, e não só por ser este gato aí da foto. Desculpem. Nunca antes aqui no Noga Bloga publiquei a foto de um autor, mas esta estava lá, dando pinta no artigo do San Francisco Chronicle, pedindo pra ser usada. Não resisti, dá pra entender porquê. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter publicado seu primeiro livro aos 29 anos (nos EUA, em 1999) - esses contos que acabei de ler e que podem ser resumidos numa única constatação: o texto não faz por merecer o excelente título, "Para alívio dos impulsos insuportáveis" -, e ter recebido por ele não sei quantos prêmios, a ponto de ser considerado pela mídia um rock-star da literatura. Nathan Englander merece o benefício da dúvida por ter tido seu primeiro romance, publicado este ano, na lista dos 100 melhores livros de 2007 do New York Times. Não é pouca coisa.

Nathan Englander se acredita intenso, brilhante, e além de tudo isso, a reincarnação da literatura iídiche, intensa e brilhante, de Isaac Bashevis Singer e Bernard Malamud. A coisa é tão óbvia que depois de ter comentado com o Alan que o cara pretendia ser o novo BS ou BM dei de cara com o mesmo tipo de comentário na resenha do New York Times. O problema é que este gênero de literatura judaica não faz nenhum sentido nos dias de hoje, já que o típico judeu da Europa Oriental do início do século passado que ele retratava simplesmente não existe mais. A não ser, é claro, na prosa de mestres como... Bashevis Singer e Bernard Malamud (ou no máximo em trechos de Jonathan Safran Foer, uma exceção que confirma a regra). Fica tudo com um gosto de pastiche, ops, de pastrami, de passado requentado, entendem? Como soam (para mim) estes ortodoxos com suas fantasias de judeus da Europa Oriental do início do século passado. Para mim, soam intensamente forçadas as dificuldades deste pessoal para conviver com a modernidade visto que, em última instância, são parte integrante dela e se não o são, é por teimosia, ou medo de perder sua frágil conexão com Deus. Porque cá entre nós, se a conexão fosse forte, vital e profunda, não estaria limitada a hábitos e figurinos que já não fazem nenhum sentido.

Mas peraí. Não estou aqui pra criticar o judaismo ortodoxo, gente, não. Não tenho nada com isso, eles que vivam e pratiquem suas crenças como quiserem. O problema é o retrato do judaismo ortodoxo nas páginas de Nathan Englander, ele mesmo, segundo apurei, um egresso de uma dessas famílias. Tal é o poder da literatura.

Num parágrafo à parte, gostaria de comentar a tradução surpreendentemente equivocada de Lia Wyler. Acho que ela acreditou que o universo ortodoxo judaico fosse totalmente inventado, uma espécie de Hogwarts cujos termos delirantemente ficcionais demandavam tradução para o português, como por exemplo "chassidas", no lugar do clássico "hassídicos", ou "hassidim". Ou o gênero trocado de "shul" - sinagoga - sempre referido no livro como "a shul" em vez de "o shul". Ou ainda o Natan do conto final, sem o "h" original de Nathan, eliminando assim o efeito claramente autobiográfico do texto. Não sei se foi isso, em parte, que fez os "estupendos contos judaicos" de Englander perderem a força. Acredito que não. Mas uma revisão de quem entende de cultura iídiche os teria com certeza beneficiado.

Nem tudo é ruim no livro. Há metáforas boas, idéias bem iteressantes, frases poéticas memoráveis, só que meio perdidas numa estrutura apenas sofrível. Fica a esperança de que Englander, no futuro - contrariando o desejo expresso do NY Times -, desista de "canalizar os mortos, de desaparecer numa tradição impregnada de velhos ritmos, como se fosse traduzida do iídiche." Tomara que ele encontre sua própria voz, e que ela seja intensa e brilhante como ele mesmo aparenta ser.

* o título se refere ao conto mais badalado do livro, em português de Lia Wyler "O gilgul da Avenida Park", isto é, Park Avenue, que fique bem claro. Quanto ao termo "gilgul", entenda quem puder.

Sobre o Autor

Noga Lubicz Sklar: Noga Lubicz Sklar é escritora. Graduou-se como arquiteta e foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica exclusivamente à literatura. Hierosgamos - Diário de uma Sedução, lançado na FLIP 2007 pela Giz Editorial, é seu segundo livro publicado e seu primeiro romance. Tem vários artigos publicados nas áreas de culinária e comportamento. Atualmente Noga se dedica à crônica do cotidiano escrevendo diariamente em seu blog.

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