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Retratos & Poesia Reunida

Antonio Miranda*

Segundo uma recomendação de Drummond de Andrade - em seu célebre poema... - destrui grande parte dos meus versos da infância e da puberdade. Não eram poesia. Respondiam a estímulos emulatórios, experimentando métricas apreendidas das leituras dos cursos primário e secundário (como eram então chamados as primeiras fases da educação regular).

Não sei se algum poeta jamais escapou desse mandato de iniciar-se pelo culto e imitação dos poetas mais célebres de seu tempo. Os primeiros versos escrevi-os aos 9 anos, no convés do navio Ita em que viajei, com a família migrante, de São Luís do Maranhão para o Rio de Janeiro, em 1949. Salvaram-se alguns versos porque fazem parte de cadernos e álbuns conservados com zelo e mimo, num relicário ególatra e narcisista... (Nem tanto pelo interesse de guardar as memórias de infância - período não muito feliz de minha vida - mas por apego a alguns objetos pessoais).

Aos 12 anos eu "publicava" à mão um jornaleco de poesia com amigos do Grupo Escolar; aos 13 e 14 anos imprimia, na gráfica do tradicional O Fluminense, em Niterói, o jornal A Voz da Juventude em que era diretor, redator-chefe, principal colaborador, agenciador de
anúncios e vendedor de exemplares... Saíram três Apresentação pelo autor números apenas, em 1953, um deles com um soneto de minha autoria, que não mais reli. O diretor do Colégio Afrânio Peixoto, que era irmão do grande escritor, ofereceu-me uma bolsa de estudos no seu educandário, na cidade de Nova Iguaçu, e a co-responsabilidade pela edição de O Acadêmico. Mas nosso relacionamento durou pouco. Eu não tinha as convicções políticas, ainda menos as religiosas e menos ainda as "morais" que ele exigia de mim - o homem era admirador de Plínio Salgado - e eu expulsei-me do colégio... Virei autodidata por muitos anos.

Passei a ler vorazmente, de tudo. Tomava livros emprestados de amigos. Principalmente de uma biblioteca pública no bairro carioca do Rio Comprido e, mais adulto, comecei a freqüentar a Biblioteca Nacional. Este período de minha vida está devidamente registrado no meu livro Manucho e o Labirinto (São Paulo: Global Editora, 2000).

Sofri todas as influências possíveis. Dos arcádicos, dos românticos, dos parnasianos, dos surrealistas, dos concretos e neoconcretos, dos revolucionários e engajados politicamente, dos malditos e dos antipoetas. Sem nenhuma convicção ou fixação. Lia teatro, romance, contos, poesia e filosofia e, também, livros de história e geografia.

As viagens por todo o Brasil, como mochileiro, e por países vizinhos, na década de 60 e, como estudante e já como profissional, nos anos 70 e 80 do século passado, foram decisivas para a minha formação de autor. A fase carioca (até 1966) e a venezuelana (1966-1972) deram-me os alicerces de que até hoje me valho, mesmo depois de optar por Brasília, a partir de 1973.

Temporadas na América Latina e na Europa deram-me acesso a outras línguas e a estudos para expandir os horizontes intelectuais. Os grandes temas - perdoem a pretensão - de minha poesia permanecem inalterados: o corpo, o tempo, o amor transitório ou transcendente, o agnosticismo, os símbolos e as mazelas nacionais. Acho que escrevo e re-escrevo os mesmos poemas, desde a juventude, para dizer as mesmas coisas, com o meu pessimismo ativo.

A propósito de "pessimismo ativo", foi meu amigo - e revisor de plantão - Raimundo Tadeu Corrêa que chamou a atenção para a minha ligação com os temos da contemporaneidade. Em certo sentido, creio estar na vertente de pensamento próxima a Walter Benjamim que, conforme o Dicionário de Filosofia, de Ferrater Mora (.....) ele "pensava numa utopia dentro da história. A utopia coincidia, a rigor, com a "origem". Esta não é um passado histórico, mas um momento presente eterno, um tempo de agora (Jeitzzeit), que deve justificar e redimir todos os tempos e todas as injustiças. Isto distingue o "presente" de mera repetição mecânica em que se encontra imersa a cultura, e especificamente a cultura artística, burguesa". Só que o Filósofo do Círculo de Berlim (ainda) acreditava no materialismo histórico, naquele sentido utópico oposto ao historicismo. Sempre quis exercer um pouco o ideal da integração das artes, invocando formalismos das artes visuais, algum ritmo e dramatismo teatral, visando a exposição ou apresentação pública de minha obra.

Nos últimos tempos venho optando por projetos de livros em vez de dedicar-me a poemas soltos, com um unidade temática e formal. Assim foi a concepção de Brasil, Brasis, composto às vésperas do 5 Centenário da "Descoberta" do Brasil e Canto Brasília, pelo transcurso do centenário de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o fundador de Brasília. Mas esses textos têm origens bem mais antigas, que se consubstanciaram graças a retomadas mais objetivas, como no caso de Perversos.

O último trabalho - Retratos -, com poemas dedicados a amigos, pretendeu montar um mosáico de temas atuais ou constantes relativos a autores, lugares, idéias e valores presentes no meu imaginário. Gosto de intercalar textos de meus autores preferidos diretamente nos meus poemas, além dos recursivos epígrafes, quando não parto diretamente para a perífrase. É difícil desvencilhar o que penso do que cultuo na minha poesia. Como sigo a noção do pensamento moderno de Edgar Morin, no concernente à idéia da pós-modernidade, não vejo problemas no ecletismo, na heterogeneidade e na hibridez dos meus textos.

Escrevi tanto em Português quanto em Espanhol (língua em que publiquei meus primeiros títulos literários) mas hoje faço-o unicamente na língua vernácula. Evitei publicar, no presente volume, traduções ao nosso idioma, de poemas escritos durante o meu auto-exílio pela América Latina, - tais como Tu país está feliz e De crenças e vivências.

Ficaram de fora desta edição outros textos escritos na Venezuela e na Colômbia, particularmente a obra poético-musical Calzoncillos com nubes o si prefieren SOS Colombia, texto encenado no Teatro Popular de Bogotá (1973) e também o Jesucristo astronauta, autosacramental sobre lo profano y lo divino (Caracas, 1973). Muitos dos poemas aqui reunidos estavam perdidos ou esquecidos em edições limitadas e em antologias, quase sempre fora do mercado editorial, publicados nos últimos 50 anos. O leitor mais atento
vai perceber que existem períodos menos produtivos - parte da década de 1970, quase toda a década de 80, parte da década de 90 do século XX. Em verdade, as edições de livros é que ficaram concentradas em determinados períodos de minha vida. É certo que também houve anos em que escrevi pouco - andava muito dedicado aos artigos e projetos profissionalistas, nas áreas de Biblioteconomia e Ciência da Informação. No entanto, fazia muitos anotações numa espécie de memorial de vida (pois não chegam a constituir um diário), que logo serviram de base para os períodos de maior produtividade.

Uma coletânea de poemas - que resumem toda a vida de um autor - não só revela altos e baixos como, indefectivelmente, exibe diferenças formais e estilísticas. Não obstante, acredito que exista alguma unidade, tanto formal quanto temática, ao longo de todo o texto reunido. E algum mérito que justifique a sua reedição.

Sobre o Autor

Antonio Miranda: Antonio Lisboa Carvalho de Miranda é maranhense nascido em 5 de agosto de 1940. Membro da Academia de Letras do Distrito Federal. Professor e chefe do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, Brasil, ministra aulas e cursos por todo o Brasil e países ibero-americanos. Poeta, escritor, dramaturgo e escultor, já publicou romances, poesias e peças para teatro (gênero pelo qual é conhecido lá fora) em vários países. Em 1967, por decisão própria, exilou-se para viver intensamente um período de efervescente agitação cultural na América Latina, dedicando-se à produção literária e artística. Sua criatividade foi reconhecida com prêmios pela crítica internacional (Medellin - Colômbia, San Juan de Puerto Rico). Miranda viveu e publicou em Buenos Aires (Argentina), Caracas (Venezuela), Bogotá (Colômbia) e Londres (Inglaterra). Tu País Está Feliz, peça de teatro estreada em 1971, foi representada em mais de 20 países e só publicada no Brasil em 1979.

 

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