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Dois poetas em busca da identidade nacional dos portugueses e dos brasileiros: um estudo de caso.

por Antônio Ribeiro de Almeida *
publicado em 18/06/2004.

A questão, "quem sou EU?",seja colocada por um português, um brasileiro ou um americano, é uma questão que passa tanto por uma resposta relativa à identidade pessoal como pela identidade nacional. Quem sou EU, pergunta o leitor? E as respostas são tantas como são aqueles que me lêem. Sou um homem ou uma mulher, operário ou estudante, filho de Alzira e de José, solteiro ou casado, e assim por diante. Para provar que eu, sou eu mesmo, o Estado exige que porte uma carteira de identidade com minha foto, data de nascimento, filiação, etc.

Se, às vezes, a questão da identidade ganha níveis de complexidade alarmante, seja para os que gostam de filosofar ou para os que estão mergulhados nas cavernas sombrias da sua psique, nos limites deste artigo ela se volta apenas para a questão da identidade nacional como foi vista por dois poetas. E isto coloca a questão do que significa ser brasileiro ou português na visão de dois poetas de épocas diferentes. É possível que brasileiros e portugueses não se reconheçam mais na descrição dos poetas. A identidade nacional é um conceito histórico, sujeito, portanto, às mudanças que ocorreram tanto no Brasil como em Portugal ao longo dos séculos. Acredito, contudo, que vale a pena ver a "Weltanschauung" dos poetas que, muitas vezes, superam à dos cientistas, e podem ter uma permanência no tempo que surpreende os historiadores.

No Brasil, sociólogos e ensaístas como Afonso Arinos, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta, estudaram o problema e produziram textos que hoje são clássicos na literatura. Reveladores da identidade nacional do brasileiro são, por exemplo, o "Pelo Sertão", de Afonso Arinos, o "Casa Grande e Senzala" de Gilberto Freyre e que está sendo reeditado, "Raízes do Brasil" de Sérgio B. de Holanda, e mais recentemente, de Roberto DaMatta , "Carnavais, Malandros e Heróis. " Perdoem-me os portugueses se a minha ignorância obriga-me a ficar em "Os Lusíadas" de Luís de Camões.

Mas a descoberta da identidade nacional, ou sua tentativa ,pode ser feita por outros meios. Ocorre-me, por exemplo, a música como expressão da identidade de um povo; a culinária, a religião, os esportes, etc. Se se considera estes meios, logo se descobrirá como os povos se diferem na expressão dos mesmos.

A Poesia, é, naturalmente, uma expressão da Cultura de todos os Povos e que pode servir para descobrir o "ethos" de cada um. (Ver, sobre este conceito, o texto de Henrique C. Lima Vaz, S.J., Escritos de Filosofia II - Ética e Cultura, Ed. Loyola, 1988).Considerando, portanto, dois poetas, Luís de Camões (1524-1580) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), procuro ver como os dois trataram a questão da identidade nacional dos seus povos, ainda que em poucos momentos.

LUÍS DE CAMÕES E A IDENTIDADE PORTUGUESA NOS LUSIÁDAS

Nenhum povo foi mais bem descrito e cantado no seu passado glorioso como o povo português. Camões descreve como Vasco da Gama partiu do Tejo e foi com seus marinheiros em demanda da via marítima para as Índias Orientais. É, portanto, a descrição de uma viagem marítima com inúmeras aventuras, descobertas de novas gentes, tempestades, calmarias, traições, revoltas e lutas, inclusive com os deuses, e muito da história dos reis de Portugal. Camões eleva a língua portuguesa a um nível de beleza, harmonia e precisão raramente superada. Não há nenhuma dúvida que o conhecimento deste poema épico, seja no seu todo ou em partes, compõe no imaginário social a identidade portuguesa, como, em outro nível, o fado.

Quando um português pergunta: "Quem sou EU?", na sua resposta estará presente este passado, ainda que no seu inconsciente coletivo. Acredito que muitos elementos da alma portuguesa, que Camões tão bem descreveu, resistiram ao tempo e em ocasiões especiais voltam a aflorar.

Vejamos alguns traços que compuseram esta identidade nacional, muitas vezes contraditória, seguindo alguns momentos do poema épico de Camões. Logo no início do Canto I é mostrado o caráter forte do povo luso:

"As armas e os barões assinalados que, da Ocidental Praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana....
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando."


Ou, ainda, esta outra passagem no Canto X reveladora de outro aspecto desta identidade nacional, quando a comparação do ser português com outros povos revela o grande desejo de superação de um sentimento de inferioridade:

"Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portugueses. (Canto X, 152)

Não deixa de ser curioso que após relatar tantos feitos de Vasco da Gama, o poeta ainda mostre este sentimento de inferioridade em relação a outros povos da Europa. Os traços descritores de grandeza estão logo no inicio do poema na famosa hendiade com que é aberto o poema e que todo bom ginasiano, aqui no Brasil, por volta das décadas dos 40 e 50, sabia de cor: "As armas e os barões..." Ela, não se refere especificamente a nobres, mas aos portugueses que empreendiam a viagem. (Vide Notas Filológicas de José Maria Rodrigues in Os Lusiadas, Ed. Imp. Nacional de Lisboa, 1931).Finalmente, no Canto X, todo heroísmo, todo sacrifício, toda luta sobre-humana dos marinheiros são demonstradas em favor do Rei.

Acredito que muito resumidamente pode-se apreender alguns componentes da identidade portuguesa como aparecem no poema. São eles: a) esforçar-se acima dos limites humanos; b) alcançar a imortalidade pela Fama; c) desejo de superação sobre outros povos: d) fidelidade e obediência ao Rei sem limites, com o preço da própria vida. Suponho que em Portugal existam estudos de identidade nacional, baseados na Literatura e na História, hoje, possivelmente englobados em uma Psicossociologia Histórico-Literária. Não me é possível especular ate que ponto estes traços do passado estariam ainda mais ou menos presentes na identidade do português deste final de século. Mas não se pode deixar de registrar, que, para os brasileiros cultos, no imaginário de cada um, alguns destes traços estão bem estabelecidos neste processo de hetero percepção social.

Já o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, tenta, ao longo de sua obra poética, desvelar um pouco desta identidade nacional dos brasileiros.

DRUMMOND E A TEMÁTICA DO BRASILEIRO

Carlos Drummond de Andrade considera a temática do ser brasileiro em três momentos de sua obra e que se estendem de 1930 até 1973. Logo no inicio de sua carreira, quando ainda vivia em Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, ele sintetiza a questão em versos deliciosos presentes em "Também já fui brasileiro", "Europa, França e Bahia" e, em "Fuga." Transcrevo alguns versos desta primeira fase:

Eu também já fui brasileiro/moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde e apreendi na mesa dos bares/
Que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.


Neste primeiro verso o que temos é um Drummond que valoriza o elemento étnico, (moreno) e, que, por outro lado, brinca e ironiza o nacionalismo fascista que estava na moda e que era uma questão que dependia do horário de funcionamento dos bares. Ele apoiava, naturalmente, o Nacionalismo Cultural que havia se expressado na Semana de Arte Moderna de 1922. Conhecera e correspondia com Mário de Andrade e Heitor Villas Lobos que eram expoentes da Semana.

Em "Europa, França e Bahia" o poeta mostra que existe um "olhar" brasileiro sobre as coisas, e, sobretudo, como ele seleciona o que vê na Europa e na França. A esta altura do século o olhar não mais enfoca Portugal. Escreve:

Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris, a Torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo....e a água suja do Sena escorrendo sabedoria....Chega! Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa (Hoje, ele escreveria, de Miami e New York)
...Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras/ onde canta o sabia.


Em "Fuga", os versos de Drummond revelam o grande conflito que sempre existiu entre uma elite branca e o resto do povo. A postura crítica do poeta é amarga e envergonhada: enfim, é uma infelicidade o ser brasileiro. De passagem ele também não deixa de criticar o mundo europeu no qual o brasileiro se espelha.

Povo feio, moreno, bruto,
Não respeita meu fraque preto.
Na Europa reina a geometria
E todo mundo anda, como eu, de luto.


Nesta primeira fase, parece muito clara esta ambigüidade drummoniana entre a aceitação ou a rejeição do ser moreno, e, também o modelo europeu que se colocava muito forte desde o período imperial, deslocando-se de Portugal para a França. Este modelo terminaria com a poderosa influência norte-americana depois da Segunda Guerra Mundial. Sob este aspecto, o brasileiro repetia comportamento similar ao do português do século XIX. Eça de Queiroz, nas crônicas que publicou entre 1880 e 1894, reunidas sob o título genérico de Cartas de Paris e Cartas de Londres, reverbera esta imitação do estrangeiro, mas que, para ele, seria uma tendência de todos os Povos. Escreve Eça :

"O mundo vai se tornando uma contrafação universal do Boulevard e da Regent Street. É o modelo das duas cidades (Paris e Londres) é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginiza, e se curva à moda francesa ou britânica, mais se considera a si mesma civilizada e merecedora de aplausos..
"(Ecos de Paris, pag. 8, Lello & Irmão, Porto, 1912. )


Neste sentido caberia questionar se brasileiros e portugueses não teriam uma identidade nacional suficientemente forte para, nas suas singularidades, resistirem a esta desnacionalização que hoje é mais global do que nunca.

No segundo momento, a temática drummoniana se centra na identidade tanto nacional como até municipal. A identidade brasileira, como a identidade de qualquer povo, é, na verdade, uma pluri-identidade enquanto ela se apoia na formação da consciência em vários níveis: o fato do sujeito, primeiro, pertencer a uma cidade, e depois, a um estado e a um país. Em "Brejo das Almas"(1934) e "Sentimento do Mundo" (1940) surgem dois poemas que demonstram esta estruturação. São eles "Hino Nacional" e "Confidência do Itabirano" (Drummond nasceu numa cidade mineira chamada Itabira) .

"Hino Nacional" revela o poeta extremamente perturbado pelo processo acelerado de modernização porque passa o país e o cosmopolitismo desencadeado pela Revolução de 1930. O problema da imigração e do pluriculturalismo surgem nestes versos :

O que faremos importando francesas muito louras, de pele
Macia. Alemãs gordas, russas nostálgicas...e virão sírias fidelíssimas.


Duvidando da possibilidade de uma aculturação, ou, talvez, expressando apenas o fastio do poeta, Drummond termina seu canto de uma forma pessimista :

O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Já em "Confidência do Itabirano" este pessimismo cede lugar a uma identidade forte que é forjada pelas ligações com a cidade natal. Ela é vista de longe, quando Drummond já havia se mudado para o Rio de Janeiro, à convite do Ministro da Educação, Gustavo Capanema, no período da ditadura de Vargas. Corria o ano de 1942 e para o poeta Itabira é apenas uma fotografia na parede, "mas como dói..." No auto-exame da sua identidade brasileira-mineira-itabirana, o poeta reconhece que tendo nascido numa região de ferro e pobre em vegetação, ele é "triste, orgulhoso, de ferro. Ferro que compõe até sua alma".

No terceiro e último momento o poeta trabalha a sua identidade mineira no poema "Prece de Mineiro no Rio" (1967) e realiza uma síntese final da sua identidade em "Canto Brasileiro" de 1973. Na Prece o poeta luta contra a despersonalização do seu eu que o mundo vertiginoso da cidade grande impõe. Ser mineiro significa, para ele, muitas coisas, talvez muito mais do que ser brasileiro. O espírito de Minas surge como o ordenador do caos.

"Espírito de Minas, me visita, e sobre a confusão desta cidade... lança teu raio ordenador. Conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença... quero firme e discreto o meu amor, meu gesto será sempre natural.
.............................................................
Os que zombam de ti não te conhecem, na força com que, esquivo, te retrais e mais límpido quedas, como ausente.

Uma leitura psicossociológica do poema permite que sejam destacados os seguintes traços como componentes da mineiridade: em primeiro lugar a busca da ordem interna (psicológica) como no mundo social, associado ao segundo traço desta estrutura: o conservadorismo. Já do lado mais dinâmico desta identidade destaca-se a firmeza e discrição nos atos. Será que, por isto, diz-se que "mineiro trabalha em silêncio?" Para mim, é válida a hipótese que os grandes poetas conseguem desvendar muitos traços que compõem a identidade nacional dos seus povos. Não há dúvida que Drummond captou o que foi a identidade mineira durante um certo período da História.

Finalmente, a síntese da identidade brasileira estaria expressa no "Canto Brasileiro". Se admitir que a identidade nacional de qualquer povo é um construto social possuidor de uma dinâmica própria, tanto ao longo da vida de uma pessoa, como de um Povo, ele está sujeito a modificações. No "Canto Brasileiro" o poeta tenta uma síntese das identidades brasileiras ao dizer que é um modo de ser que "volta em cor, em paisagem, na polpa da goiaba, na abertura de vogais, nos mins entrelaçados, etc." Lamenta que a arte de viver do brasileiro foi soletrada em roteiro distante (Portugal? França ? , e, hoje, os Estados Unidos ? )_Aceita a morenidade, pois ainda não existe uma raça brasileira, e coloca a Liberdade como valor supremo deste povo. Espero que não se peça deste estudo o que ele não pode oferecer. Foi, apenas, um estudo de casos. O estudo da identidade nacional não é, no momento, prioridade da Psicologia Social, da Antropologia e da Etnologia. Na Universidade de São Paulo, depois da enciclopédica tese de Dante Moreira Leite, (1927-1976) "O Caráter Nacional Brasileiro", poucos se aventuraram nesta área tão movediça e complexa que pede uma abordagem intercultural. Quem sabe tenha chegado a hora de antropólogos, sociólogos, etnólogos, poetas e romancistas se reunirem num grande projeto nacional que tente elucidar quem é, afinal, o brasileiro?

Sobre o Autor

Antônio Ribeiro de Almeida: Jornalista e escritor de São José do Rio Preto/SP.

Doutor em Psicologia Social, FFCLRP-USP



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