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Dos duros retornos às ilhas demolidas

por Chico Lopes *
publicado em 10/9/2007.

(Para Marcos Zachi, por conversas noturnas na esquina da Cesário Castilho com Antônio Sabino)


Um amigo, dos vários com quem compartilhei sonhos e exaltações de juventude nos anos 70 e hoje em dia não se encontram mais em Novo Horizonte, interior de SP, me reencontrou aqui pelas páginas do Verdes Trigos e, desde então, temos trocado alguns e-mails.

O tom de nossa correspondência é de inevitável saudosismo misturado a inevitáveis malogros - velhos conhecidos de décadas que não voltam mais, naturalmente, nos comprazemos em lembrar acontecimentos, pessoas, leituras em comum. Ele está em S.Paulo, com uma loja de informática, e eu moro em Poços de Caldas, MG, muito longe da pequena cidade onde nascemos e vivemos por tanto tempo. De lá, saiu antes de mim. Levou de mim a lembrança de uma espécie de guia literário - nossas conversas giravam em torno de livros e idéias que nos levavam para muito longe daqueles velhos horizontes limitados, indo de Carlos Castaneda a Dostoievski e Tolstoi. Eu era mais velho e fazia com que lesse tais e quais livros, para trocarmos opiniões.

O que me impressionou, quando me escreveu dizendo que continuava a me ler aqui pelas páginas deste site, foi o fato de não haver me esquecido. Em geral, como cético que sou, tenho a impressão de nunca ter causado ou deixado impressões mais profundas em ninguém - o problema pode consistir em eu me auto-avaliar, sempre, com sobriedade talvez excessiva. Não me considero um sujeito particularmente afetuoso, mas as pessoas, surpreendentemente, podem ver em nós coisas que nem imaginamos. Podem até gostar de nós, o que é mais surpreendente ainda.

Em todo caso, o que vem percorrendo nossa troca de e-mails, em essência, é uma nota melancólica: isso de os retornos ao passado serem sempre tão problemáticos e dados a desilusões infalíveis. Ele retorna a Novo Horizonte para rever a família com alguma assiduidade, suponho, e eu retorno, a intervalos de por vezes três a cinco anos, também. O apelo da terra natal é um fato, ainda que, com o passar do tempo, e depois que se a conheceu muito bem, vá se tornando mais fraco e indistinto. Mas persiste uma espécie de sinal atávico, que não tem nada a ver com a racionalidade - uma espécie de chamado que talvez se dirija mesmo é ao nosso corpo, a uma herança geográfica ou telúrica sobre a qual não temos controle consciente. Um chamado de coisas, sensações, fantasmas, nunca um chamado lógico. Velhas "razões do coração", teimosas, implacáveis e, resistentes, dispostas a abrir sempre novas esperanças que virarão outras tantas decepções. Em suma, volta-se ao lugar onde se nasceu e viveu por muito tempo porque uma parte de nós continua a viver nele, ou ele a viver nalguma parte de nós inextirpável pelos raciocínios que ruminam o lógico desencanto.

RUÍNAS DA PAISAGEM, RUÍNAS DO EU

É um tema conhecido por todos, e por todos vividos em cada escala individual - o impulso de fazer uma visita aos lugares onde se nasceu e viveu, com as conseqüentes descobertas das modificações que ele sofreu, as modificações que sofremos nós também, e as ironias e tristezas que daí decorrem. Creio que já se escreveu muito sobre isso, na prosa e na poesia, com maior ou menor acuidade. E, no entanto, continua sendo um tema forte, porque tão vivo, porque é o tipo de jornada que todo mundo vive a empreender, na espera de algum milagre de reconhecimento ou de eternização de alguma coisa preciosa que houvesse ficado no passado e pudesse ser recuperada ativamente no presente. O fato de ele não acontecer não invalida o seu apelo, que tira a sua força dos nossos desejos mais obscuros. Passados alguns anos da última viagem que resultou em nada, eis o sujeito preparando-se para nova viagem, esperançoso de não sabe o quê. A cessação total dessas expectativas está fora de nossa capacidade. Quem decide pela viagem nem é o adulto, mas o menino bobo e impenitentemente disposto a ser feliz que conservamos. Mas, se o matarmos, mataremos a única poesia que temos.

O que dói é isso: lá está a família, os amigos e conhecidos, mas o Tempo fez o seu trabalho lógico sobre os rostos, corpos, almas, e, nos olhos que nos reconhecem há também o reconhecimento de que passou, e como! para nós também. Pensa-se no tango "Volvió una noche",de Gardel, em que o sujeito canta que uma dada mulher voltou, depois de muitos anos, a procurá-lo. E ele teve pena dela. Mas não foi diferente com a mulher: "Havia em meu rosto tantos Invernos/ que também ela teve piedade..."

Se o caso é de piedade, é ao menos aceitável. Por vezes, o caso é de um ressentimento amargo e mal disfarçado, quando se está bem, quando a ruína em nós foi menor que a verificada naqueles que revemos. Há uma tendência natural a supor que estejamos melhores, já que não estamos por perto (o que está longe sempre é mais tonificante para a imaginação e pode-se projetar as fantasias sobre ele livremente). Ouviu-se notícias exaltantes sobre a nossa vida fora daqueles limites, imagina-se que estamos ricos, famosos, bem casados e uma porção de coisas só parcialmente verdadeiras. Quem ficou, acha que não progrediu, estagnou ou regride indisfarçavelmente. Quem se foi, fez a coisa certa, mas foi uma traição - aceita-se o sucesso alheio com um misto de admiração e ressentimento em que um e outro se trombam e alternam. É natural que nos sintamos sempre mais à vontade com a desgraça que com o sucesso do outro - a desgraça é mais geral e mais consoladora.

Quanto à cidade -, que mudanças! Podemos andar por todas aquelas ruas que pisamos e repisamos por décadas, mas não são as mesmas. Há, inclusive, uma tendência à desorientação, porque o corpo habituado ainda quer ir para certas direções, supõe por velho instinto que em determinada curva da praça vai dar alguns passos e entrar num dado bar-restaurante, mas ele não está mais lá. Não estão mais lá as lanchonetes onde certas turmas se reuniam, substituídas por outras ou por comércios de outra espécie. Aquelas caras que muito se viu ou envelheceram tanto que dão certos calafrios premonitórios ou foram substituídas por outras. Gerações se sucederam e a importância que você pode ter tido para algumas pessoas de outras épocas já não é sabida nem compartilhada - de modo que você, se é uma estátua, só o é para si mesmo, sem confirmação pública. E ainda pode haver coisas surpreendentes, como gente tão fora de sintonia que nem sabia que você tinha se mudado da cidade e o cumprimenta como se você ainda fizesse parte daquela paisagem, fosse um encontro previsível. Prova mais do que consumada de que os tempos de cada Eu podem ser tão individualizados e alheios que não há possibilidade de consenso. Muita gente está tão incrustada numa vida miudinha e delirante que não há possibilidade alguma de explicar que você já está longe e fora dela há muito, muito tempo. O que pensava sobre você era irrelevante, visto que jamais se assentou em algum dado exteriormente confirmado, nem precisava.

Alguns amigos estão reduzidos a tão francas ruínas que um ao menos eu procurei evitar nos meus passeios, embora estivesse sempre em meu caminho, mas tímido, sem coragem de se aproximar. Lembrei-me que tinha um aspecto agradável demais, era um sujeito que se orgulhava dos belos dentes e da bela aparência, e agora, quem vi? um caco, desdentado, bêbado, com um ar de loucura mansa. Será que ele chegou a entender que, foi em respeito à sua memória - ou seja, a ele mesmo, que não soube se respeitar e chegou a esse ponto - que nem quis cumprimentá-lo? Impossível saber. Pessoas que se acabaram, por vezes, não acabaram de acabar. E é isso que torna as alterações que sofreram tão terríveis, para os lúcidos, os de fora, que as observam. Melhor seria não ver nada. A lucidez só nos oferece ruínas.

É o que diz talvez o poeta Iacyr Anderson Freitas, em seu poema "A mortes quantas" de seu belo "A soleira e o século": "Essa necessidade de voltar por ilhas demolidas/ sem qualquer explicação"...Casas que eu gostava de olhar, à minha passagem, porque tinham alguns jardins que me sugeriam coisas, cheiros, sossegos, passarinhos ocultos, não são mais as que foram - ou não estão mais ali, com outras novas construídas em seus lugares. A casa onde nasci e vivi até os 16 anos é positivamente outra. Parei diante dela, algumas vezes, sem coragem para sequer chegar ao portão, bater, me identificar e entrar, para ver como ficou aquele quintal, se há ainda lá as árvores que amei. Temi que o novo morador - que não tinha a menor idéia de quem fosse - me estranhasse, simplesmente. Há coisas que queremos fazer que os outros tomarão por loucura incompreensível ou sentimentalismo cretino, e não há outra saída. Contar com complacência alheia para com nossa subjetividade é consumada tolice. Nem os que muito amamos a compreende bem.

Curiosamente, toda essa decrepitude, essa sensação de um passado irremediavelmente perdido, não chega a desesperar. Uma coisa se compreende, finalmente: há em nós uma coisa que, embora se alimentasse em parte da vida, das visões desse lugar, não pertencia a ele, necessariamente. Era uma substância de ordem mais universal.

Quando vivíamos o que vivemos, naquele tempo, não era naquele tempo em que estávamos, era em outro, individual. O passado não passou, porque o lembramos - e é talvez essa a grande verdade. Sempre somos mais anacrônicos com relação ao presente do que supomos. Estivemos sempre, em flutuação pessoal, num lugar mais para intemporal. Marcel Proust entendeu isso magnificamente, em seu grande romance. E a lição que, grosso modo, "Em busca do tempo perdido" encerra, é verdadeira e simples: as coisas que nos encantam, nossos tesouros da memória, nunca foram perdidos - basta que nos ponhamos a lembrá-los.

A minha casa, que não é mais minha, que não reconheço mais objetivamente, está plantada num lugar muito mais sólido: em minha alma. E estará sempre à minha disposição, para que eu a reconstitua, se eu artista for. Até porque não possuímos as coisas - possuímos sim, errática, individual, uma noção espiritual das coisas. E essa noção só desaparecerá de fato quando nós desaparecermos.

É um consolo. Talvez por isso qualquer viagem a qualquer lugar objetivo, onde esperamos encontrar certas visões da imaginação e do desejo, seja destinada a frustrar. Talvez por isso a única viagem que sempre fazemos é a nós mesmos, tendo o mundo exterior como mero pretexto. Isso posto, pode-se encarar todas as ruínas, perdas, modificações e decrepitudes com alguma serenidade.

Mas da melancolia, ah, ninguém escapa.

* Imagem: "melancolia de uma rua", do grego Giorgio De Chirico

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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