imageAntonio Ventura, poeta marginal da Geração 70, rompe, no seu novo livro, com os limites do poema, do conto, da prosa, tramando um diálogo lírico e pessoal entre estes gêneros, escancarando toda a poesia dos abismos pelos quais transitou e transita desde a infância. O guardador de abismos  tem uma poesia que dói, tamanha a beleza das imagens e intensidade do desnudamento realizado pelo poeta.

Ao longo do livro, Antonio Ventura apresenta poemas em homenagem a grandes escritores e poetas como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Antonio Carlos Secchin, Carlos Nejar, Ivan Junqueira, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, Mário Chamie, Adriano Espínola, e também a seus filhos e a sua mulher, Débora.

Carlos Nejar diz que o poeta “de catador de palavras, passou ao ofício de guardador de abismos”, e que “o primeiro movimento era de fora para dentro”, referindo-se ao O catador de palavras, seu livro de 2011, e que “agora é de dentro para fora. Antes plantou, agora aprofunda e depura o que plantou”. Nejar ainda diz que “Antonio Ventura, ao guardar no cofre dos símbolos, o abismo que somos, não só relata a nossa transitoriedade, como utiliza os instrumentos capazes de durar.”

O guardador de abismos é a reunião de vários textos poéticos de Ventura, conjunto e partes sobre as quais Antonio Carlos Secchin escreveu: “As três partes da obra são atravessadas pelo mesmo sopro lírico, que transforma o poeta (ainda que em prosa) num ser tecido de água e vento.” Água e vento, estrela e amor, e os abismos revelam a natureza de sua poesia ao mesmo tempo em que ornamentam as imagens do mergulho que o poeta faz ao longo do livro.

Secchin diz que “após o belo O catador de palavras (2011), O guardador de abismos  é confirmação do talento – em verso & prosa – de Antonio Ventura”. “Algumas imagens se reiteram, se desdobram, se espessam, na trama obsessiva de um escritor que trabalha na fronteira entre os gêneros, ou que se esmera em torná-los reciprocamente permeáveis. Impossível compartimentar o que seria estritamente “crônica”, “conto”, “poema em prosa” e “prosa poética” num conjunto em que vários textos se compõem exatamente no esgarçamento dessas categorias. Preferimos falar em “reverberações líricas” para traduzir a atitude de Ventura.”

 

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

Data e Hora: Terça-feira, 12 de agosto às 18h

Livraria Cultura – Av. Paulista

Lançamento do livro: O guardador de abismos

Autor: Antonio Ventura

Editora: Topbooks

Preço de Capa: R$ 39,00

ISBN978-85-7475-231-0

image

Seis anos depois

O nobre deputado

Como antecipado na entrevista publicada no Verdes Trigos, a próxima obra do escritor Chico Lopes (vencedor do Jabuti em 2012 com o romance "O estranho no corredor") “NA SALA ESCURA: a arte de sonhar com os olhos abertos” está pronta.

O lançamento oficial está marcado para o dia 15 de agosto de 2014, na Livraria do Espaço Itaú de cinema; mas já está disponível no site da editora

O livro reúne ensaios sobre cinema publicados pelo autor em sites e jornais. Coletânea que traz apresentação do escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Abaixo, uma pequena apresentação do belo trabalho realizado pela Penalux. Clique na capa e já comece a apreciar o que será o livro. Surpreenda-se.

Para comprar o livro, clique aqui (site da editora)

 

image

image

(Reunindo material ensaístico produzido dos anos 1980 até 2012, incluindo textos publicados no Verdes Trigos (link 1 e link 2) , livro deverá sair ainda neste semestre)

Seguindo uma carreira que envolve muitos gêneros (memória, romance, conto, poesia) e o trabalho de tradutor de vários gêneros de ficção, não é de surpreender que o próximo livro de Chico Lopes traga outra novidade: agora, será uma reunião das incursões do escritor pelo ensaio de cinema, numa coletânea que cobre desde o início de sua atividade como comentarista de filmes nos jornais, revistas e passando pelos 16 anos em que trabalhou como comentarista e apresentador de filmes, mantendo público cativo no Instituto Moreira Salles – Casa da Cultura de Poços de Caldas, à frente do Cinevideoclube, e incluindo textos publicados em vários sites da Internet, como Verdes Trigos, Verbo 21, Germina e Cronópios.

Aqui, o escritor fala com Henrique Chagas sobre este livro e sobre os rumos que sua carreira vai tomando:

HC/VT: – Você está sendo bem comentado entre críticos de poesia e leitores pelo teu último livro, “Caderno provinciano” (Patuá,SP/2003). Já foi uma surpresa que você saísse da condição de prosador, que vinha da prosa de três livros de contos, um de memórias e um romance (O estranho no corredor, prêmio Jabuti em 2012), para a poesia. Agora, você publicará no campo do cinema. Pode adiantar o título e alguns detalhes do livro?

Chico Lopes : O título não adianto, porque sou supersticioso com essas coisas (é meio arriscado falar de um livro que não se publicou ainda (rs). Quanto aos detalhes, adianto alguns: é um volume de cerca de 200 páginas, em que procurei selecionar alguns dos ensaios mais representativos de minha produção como cinéfilo (não crítico de cinema, porque a cinefilia me parece uma definição mais apropriada para minha atividade). E aconteceu um fato feliz: Ignácio de Loyola Brandão, meu particular amigo, que também começou sua carreira como crítico de cinema em jornais de Araraquara, fez o prefácio. Temos uma amizade muito consistente, e ele acompanha minha carreira desde o início, tendo sido meu “padrinho” também na publicação de meu primeiro livro de contos lançado nacionalmente, “Nó de sombras” (IMS/SP, 2000).

HC/VT: É de se supor, no entanto, que você continue publicando contos, romances, poesia, enfim, formas habituais de ficção…

Chico Lopes: Claro, pois me considero um ficcionista, acima de tudo, e sinto que, ao comentar filmes, faço uma espécie de transcrição literária deles para o público, procurando emocioná-lo ao reviver as histórias com detalhes da trama, contando histórias dos bastidores, observando formas de atuação e direção etc. Não complico, não escrevo num jargão acadêmico inacessível aos mortais que querem se entreter com os filmes, procuro uma média mais coloquial. Testei minhas capacidades nisso também ao ser apresentador de filmes por doze anos (às quintas e domingos) no Cinevideoclube do Instituto Moreira Salles – Casa da Cultura de Poços de Caldas, para um público em grande parte fiel. O fundamental é, ao falar de um filme, conseguir transmitir parte de seu encantamento, de sua paixão por ele, ao público. Nos sites (como aqui, no Verdes) eu já obtinha uma grande cumplicidade de leitores, que me escreviam de todas as partes do país e até de fora dele, sobre os filmes comentados.

Ainda neste tópico, depois de “O estranho no corredor”, que me deu um prêmio Jabuti, escrevi um romance mais longo e estou num terceiro, mais longo ainda. E tenho projetos de um quarto livro de contos e um segundo de poesia. Não sei viver sem projetos literários. A literatura é toda a minha vida. De vez em quando, acho o mundo tão insuportavelmente sem graça, opaco e sem esperanças, que corro para a literatura, para mergulhar naquela “orgia perpétua” e necessária de que falava o Flaubert. É a salvação.

HC/VT: Supõe-se que falará muito sobre Hitchcock, seu diretor preferido, a julgar pelo número de ensaios publicados sobre ele…

CHICO LOPES: Ah, sim, inevitável falar sobre os filmes dele. Ao escrever sobre “Um corpo que cai”, por exemplo, creio que fiz exatamente o que disse aí – uma espécie de recriação literária, passional mesmo, do filme. Mas também tenho outras venerações cinéfilas: Herzog, Lynch, Buñuel, Almodóvar, Visconti, Fellini, Irmãos Coen. Venho de Hitchcock  até o cinema atual, mas já com algumas desilusões. Não acho que os filmes de hoje em dia, especialmente americanos (alguns europeus ainda se salvam bem), andem lá grande coisa. Por isso me apego muito a releituras, a velhos filmes. E adianto que não comento um só filme de franquia – não tenho paciência para super-heróis e filmes infantis e, ainda que de vez em quando alguns desses filmes possam ter lampejos interessantes (pelo que leio em outros críticos), minha cabeça é adulta demais para aceitá-los.

HC/VT: O teu salto da prosa para poesia ainda provoca algumas questões. Pode falar um pouco mais sobre isso e sobre a receptividade à tua poesia?

Chico Lopes: Pareceu um salto abrupto e desconcertante, mas não foi para mim: eu vinha escrevendo poesia, mas pouco, por causa da depuração que ela exige, e guardava. Por inibição, por não me achar em nada parecido à poesia que se pratica por aí (muito trocadilho pseudo-engraçado, muita aliteração, com um minimalismo que às vezes não sintetiza nada), mantive o ineditismo. Mas alguns amigos, que tinham lido o livro, me davam força, e obtive a grande força final junto ao editor da Patuá, Eduardo Lacerda, que me deu uma linda edição de presente. Agora, sem nenhuma pressa também, escrevo meu segundo livro de poesia, aproveitando muitas ideias que tinha e que não havia desenvolvido por inteiro ou, tendo sido desenvolvidas, agora quero podar.

Creio que essa publicação ilustra bem que nós, escritores (eu ao menos), guardamos muita coisa (eu estreei em livro só aos 48 anos) e aí, quando as pessoas nos criticam por demasiado prolíferos, se esquecem que o tempo de publicação não é o mesmo tempo da produção silenciosa. Eu tenho ainda inéditos a publicar, ensaios na área estritamente literária, por exemplo. Serão publicados quando for possível.

Em poesia, não gosto de escrever senão quando sinto que o poema é inescapável, que é preciso escrever aquilo seja lá como for, que o que sinto pede poesia. Isso nada tem a ver com cálculos e imposições editoriais.

E, aliás, quero deixar claro o meu recado pro pessoal jovem que está publicando na poesia ou na prosa: sem pressa, por favor. Na pressa de ganhar alguma fama, vencer alguma disputa entre pares, dormir com alguma gata intelectualizada (rs), vejo coisas lastimáveis saindo por aí. É preciso primeiro ter uma sólida cultura, formar o espírito, pra depois, com muito tempo de batalha com as palavras e muitas páginas rasgadas, achar uma voz própria e convincente (do ponto de vista mais amplo, sem restrição a grupelhos). Sem isso, não há escritor que se imponha. O trabalho importa um milhão de vezes mais que o personalismo, o estrelismo descartável.

ALGUNS ENSAIOS SOBRE CINEMA, POR CHICO LOPES

  1. Tolstoi sem explicações, música triunfando sobre o horror político e os prazeres de Chabrol, por Chico Lopes
  2. O verniz da alta cultura com seu charme e seus equívocos, por Chico Lopes
  3. Livro policial: guia fundamental, adaptações para o cinema e grandezas incompreendidas, por Chico Lopes
  4. A mitológica Marlene de arte perversa e refinados deboches, por Chico Lopes
  5. Mediocridade e incompreensão marcam relação de F. Scott Fitzgerald com o cinema, por Chico Lopes
  6. Entre novos fracassos e a antiga Hollywood, por Chico Lopes
  7. Um fantasma excessivamente premiado e dois dramas de família com bons atores, por Chico Lopes
  8. MAIS ENSAIOS DE CHICO LOPES publicados em VerdesTrigos

SOBRE CHICO LOPES

CHICO LOPES: Autor do livro de poemas Caderno Provinciano, Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes) nasceu em 6 de maio de 1952 em Novo Horizonte – SP. Publicou três livros de contos – Nó de sombras (IMS/SP 2000), Dobras da noite (IMS/SP 2004), Hóspedes do vento (Nankin Editorial/SP, 2010) e o romance O estranho no corredor (Editora 34/SP/2011). Em 2012, publicou seu primeiro livro de memórias A herança e a procura (Ler Editora/Brasília). O livro O estranho no corredor recebeu um Prêmio Jabuti na categoria romance em 2012. Caderno provinciano é seu primeiro livro de poesia, reunindo poemas escritos em Novo Horizonte e Poços de Caldas entre 1980 e 2003.  Reside atualmente em Brotas, SP.

DESNORTEIONo mundo moderno uma nova febre parece procurar converter leitores: a obrigação da felicidade. Livros de auto-ajuda ajudam seus autores a enriquecer e prometem bonança àqueles que aceitarem abrir mão da vida “infeliz” que vivem para conhecer o lado bom da vida. Textos felizes com exemplos de homens e mulheres bem-aventurados que respiram alegria e prosperidade, o oposto do que vemos no texto de Paula Fábrio, autora de Desnorteio (2012), seu romance de estréia, congratulado com o Prêmio São Paulo de Literatura 2012, na categoria Autor estreante.

A vida como ela é”, já dizia Nelson Rodrigues, e poderia dizer o mesmo a narradora de Desnorteio, com menos erotismo e mais sombras. Os personagens de Paula Fábrio são sofridos, angustiados, perdidos, acachapados pelo peso do mundo ao seu redor, privados da liberdade de ser e fazer o que gostariam, vítimas de domínios autoritários e de sua própria fraqueza moral.

PAULA FABRIO AO livro nos conta a saga de três irmãos, Benévolo, Rodolfo e Miguel (os dois primeiros mais conhecidos como Bené e Dôrfo), e sua influência na família. Protegidos pelo pai, autoritário e grosseiro, os irmãos, tido como loucos, representam o grau mais baixo da escala social; parecem mendigos, mesmo que verdadeiramente não o sejam, arrastando-se pela cidade como anomalias bizarras à revelia da sociedade, à margem de um mundo supostamente organizado que não quer tomar conhecimento dessas misérias.

Como bem resume uma das frases do livro, “Nos deparamos com uma história sobre homens nus” (2012, p. 20)[1], por suas loucuras, pelos desencontros e pela situação em seu país, que rodeia toda a narrativa mostrando o abandono a que podem ser deixadas as pessoas.

Uma série de recursos estilísticos ajuda na expressividade da narrativa, aproximando o leitor da sugerida realidade angustiante vivida pelos personagens. Entre esses recursos, palavras e expressões sufocantes, constantes frases curtas, engasgadas por pontos finais — “Pensando bem, moro num cubículo. Um pouco mais largo que o de Rodolfo. Um tanto mais caro. Muito mais caro. E no mesmo prédio, outros cubículos. Com velhinhos dentro. Cada qual no seu chãozito” (p. 24), diz a narradora entre sucessivos pontos finais que corroboram para a claustrofobia e o vagar da narrativa; um engasgo que não se trata de defeito, mas de um controle do leitor, fazendo-o ler com parcimônia, em meio aos pontos finais que o obrigam a claudicar e agem feito correntes prendendo-o aos pesados Oliveiras.

Há também o andamento lento no desenvolvimento da história, distendendo o tempo na narrativa através da multiplicidade de vozes que narram o texto, colaborando para uma maior compreensão e visão ampla dos personagens e do seu mundo, abrangendo seus mais recônditos pensamentos, como se a narradora, filha de Maria Luísa, irmã dos três loucos, se investisse da voz de outros para contar a história; além da constante imersão de novas lembranças, bem como na reescrita de um capítulo, como ocorre com “A mulher de quarenta ou a sobrinha, filha da dentuça. Saldo parcial II” (p. 25), que é reescrito como “Recoste o ouvido sobre o azulejo e ouça. Está tudo lá” (p. 127), acrescentando outros detalhes ainda não revelados. Como diz Italo Calvino, “A divagação ou digressão é uma estratégia para protelar a conclusão, uma multiplicação do tempo no interior da obra” (1990, p. 59).

E nesse ritmo, já no primeiro capítulo do livro, com o sugestivo nome de “Balancete”, a narradora nos prenuncia o que encontraremos na leitura: “Amor, loucura e morte não se explicam, mas o percurso até eles tem sua dose de encanto e repugnância” (p. 15). Mais à frente, descreve Dôrfo de forma acachapante: “Seu mundo é restrição. Em última instância, Dôrfo serve de decoração ao cubículo [onde mora]. […]. Dôrfo leva na pele um tom ocre, de aspecto craquelado”. Já sobre Bené, diz que “se estilhaçou como criatura”. Assim, nessas declarações, “repugnância”, “restrição”, “cubículo”, “ocre”, “craquelado” e “estilhaçou” são mais do que palavras, são definições, sentenças que, somadas ao fato de um desses homens servir como “decoração”, remetem-nos a um mundo de privação e miséria moral.

PAULA FABRIOOutro ponto que colabora com a densidade do texto são os nomes escritos em letras minúsculas. Os nomes próprios aparecem, quase sempre, em minúsculo. Nomes de personagens comuns, como das irmãs Oliveiras, e tantos outros, são grafados em minúsculo. Já os irmãos Oliveiras e seus pais possuem nomes em letras maiúsculas, do mesmo modo que alguns outros desterrados da vida, semelhantes a eles. Essa diferenciação das letras retrata uma diferenciação entre as pessoas, entre os tipos. Aqueles que fogem aos padrões convencionais estão, como os irmãos e outros loucos, em maiúsculas, os outros que vivem ao seu redor, as cidades onde vivem ou passam, em minúsculas. O que, por sua vez, demonstra a importância dos nomes, da forma como são apresentados na narrativa, como diz Umberto Eco, “Certamente o romancista deve emprestar confiança aos nomes próprios, a fim de identificar sem ambiguidades as próprias personagens” (2013, p. 477).

Nessa história, mesmo aquilo que, em outra situação, seria trivial, um simples ato generoso, é descrito como um momento doloroso, como quando Maria Luísa, a irmã bem aventurada, presenteia seus sobrinhos pobres e estes sugam tudo “para dentro do saco sem fundo da miséria” (p. 45), nas palavras sôfregas de seu filho, demonstrando que, nesse mundo, ser mais rico também é pesaroso, e talvez presentear os menos afortunados fosse uma forma de “compensar a dor de ser mais rico” (p. 45, grifo nosso).

A seguir, outros relatos de incômodo se somam a esses e o livro, acima de tudo, debruça-se sobre a vida dos três irmãos e a forma como eles vivem, bem representada tanto pela descrição do insólito do quarto que habitam, quanto de seus moradores, como no caso daquele que se confunde e se mimetiza com as paredes, formando uma só coisa — metáfora de todo o estrangulamento em que vivem: “No interior do cubículo, uma pequena lâmpada pende do teto e compõe, com os tijolos vermelhos das paredes, um tom ocre que se confunde com a cor da pele craquelada do animal em sua clausura. Esse animal é um homem” (p. 65). E esse homem é Dôrfo, o filho mais velho dos Oliveiras.

A cor dos tijolos retratados em mimetismo com a cor da pele do homem-animal dentro do quarto, assim como o quarto retratado não como lar, mas como clausura, lembra-nos o quadro de uma jaula num zoológico, onde um animal, completamente adaptado ao seu habitat, recriado à moda selvagem, sobrevive curvado pelo peso de existir à parte da selva comum humana — um afastamento praticado também por quem o vê e o descreve, e que se dá na escolha das palavras que o definem, “Esse animal é um homem”, que na verdade diz-nos, “Esse homem é um animal” selvagem e assombroso.

Dessa forma, um véu escuro cobre a vida desses personagens. Em seu mundinho inviável, estreito e angustiante, eles aparecem como seres pequenos em relação ao grande mundo; insetos, moscas que incomodam, mas, a princípio, sem importar, como diz a própria narradora: “Suas vidas não interessam a ninguém. Incomodam apenas” (p. 20). E aí reside uma nuance: se incomodam, podemos entender que, mesmo desimportantes, são notados, existem para os outros, ainda que desagradáveis, como no caso da reportagem sobre os ratos na casa dos irmãos: “E eu cheguei a pensar que ninguém ligava pra eles”, diz a narradora. “Agora a televisão escancarou a nossa pobreza ao mundo. Prefeitura, serviço social, dedetização, tanto desagrado. Agora todos sabem. E bem no canto da tela, o pé do Bené e os ratos. Dez mil ratos. Alguém teria feito a conta? (p. 51).

Nas possíveis causas dos rumos da família, o pai que, segundo Maria Luísa, “sustentava vício de marmanjo e mandava as filhas trabalhar” (p. 38). Um autoritarismo que atrapalhou os sonhos de ser músico do filho Miguel: “eu sabia, a vida não me sorriu de nascença. Pelo menos não por completo. Havia a família. Digo, havia meu pai. E com ele um muro que cerrava as coisas conforme sua vontade” (p. 76), diz ele, e nas suas palavras, “muro” e “cerrava”, percebemos a força dominante desse pai.

Mas além de Miguel, outros sofreram a força do pai como aquele: Dôrfo fechou-se eu seu mundo particular e se transformou num “Moisés descalço, com feridas nos pés, e o olhar mais distante que já avistei num Oliveira” (p. 78); Bené, foi relegado a indiferença do pai para quem “Bené era apenas um vulto que desfilava pela sala. E esse talento, Bené retém até hoje” (p. 78-9).

Porém, sobre Miguel, ele também foi vítima das suas escolhas e da sociedade. Quando se encontrava com a vida, aparentemente, encaminhada, cantando no rádio, os tempos mudaram, os empresários começaram a mandar em tudo — além do seu envolvimento com o consumo de drogas — e o peso capitalista sufocou seus sonhos, levando-o à falta de dinheiro e a desentendimentos com a esposa que culminaram com a separação do casal e seu retorno à casa paterna. Fracassado, tem consciência do que se tornou e de como o vêem: “Pior é perceber o desgosto com que me olham” (p. 75).

Quanto aos outros irmãos, Dôrfo tem vários problemas que o qualificam como louco, mas entre eles tem um segredo a consumi-lo: sofre por não ter amor, e sofre pela irmã, Maria Luísa, com seu desejo proibido guardado: “tanto desejo guardado como doce em compotas sobre a geladeira. […]. Vontade de abrir o vidro e chupar os dedos, lambuzar e ser lambuzado” (p. 114). Daí, também consciente do que é, seu desejo pela própria irmã se configura em mais um abismo entre ele e a felicidade, enquanto a sua consciência se configura em mais uma opressão:

Daqui a dez, vinte, trinta anos, serei o mesmo irmão ocre, descamisado, o mesmo de agora, um sujeito que buscou o amor dentro de casa porque a vida lá fora sempre lhe foi desnecessária. E daqui a dez, vinte, trinta anos, ela continuará a ignorar se tenho um coração (p. 114-15).

Palavras como “descamisado”, “ocre”, “desprezou”, “perdido”, “dor”, “sujo”, “asqueroso”, “fardo” e “condenação”, são impiedosas consigo mesmo, mas atenuadas pela afirmação final de que, apesar disso tudo, ele tem um coração.

Quanto a Bené, este incomoda por ter o tétrico hábito de repetir sempre as mesmas frases sobre os mortos: “elvis morreu, elis morreu. Como pode morrer tanta gente que nunca morreu antes?” (p. 83). Mas sua loucura também tem seus momentos de revelação, como quando filosofa à moda de Heráclito: “Todos os rios são o mesmo rio, todos os mares, o mesmo mar. E todo ser humano é o outro. Eu sou o outro” (p. 83).

Na sua loucura, Bené e Dôrfo acabam num manicômio. Pela descrição, o lugar é uma espécie de comicidade mórbida, onde mais uma vez temos a imagem do homem comparada a do animal, na descrição da narradora, o que denota a condição de nulidade humana daqueles pacientes; a andar em círculos, feito zumbis, num eterno retorno ao caos, se em algum momento saíram dele, controlados por “adestradores” que os tangem como gado.

Porém, do outro lado da família, as irmãs também não se mostram isentas de desventura, como podemos perceber nas descrições em que elas aparecem, sempre diminuídas, infelizes, desditosas. Maria Luísa, por exemplo, tem um “filho que lhe saiu do ventre e lhe cuspiu na cara” (p. 44), suas pernas entrevaram e o marido que lhe trai com uma amante. Quanto à Teresa, sua pobreza é indiscutível, vivendo numa casa onde havia a falta de dinheiro, a falta de leite, carne, ovo” (p. 47); Já Inês, a outra irmã, morrera no parto. Além disso, o próprio comportamento das irmãs deixa transparecer certa influência dos males psicológicos da família.

No meio disso, uma palavra é constantemente reiterada: “labirinto”. Dentre seus significados, estão a cidade como labirinto, o corpo dos mais velhos —“Para os mais velhos, o labirinto é seu próprio corpo. Sua mente”, diz a narradora —; e a própria vida da família Oliveira. O mundo que os rodeia é constantemente comparado a um labirinto, como mostra essa declaração da narradora:

Aos quarenta, habitantes desatinados do labirinto, descobrimos onde estamos, e é tudo o que nos foi dado. O nosso labirinto, um sítio sem saída do emaranhado maior. A região nublada, entre o ir e o não ir mais. O vacilo. Sobretudo se há desemprego, ou divórcio, ou doença. Ou o medo de (p. 89, grifo nosso).

Mas o que é um labirinto para que se justifique sua presença na forma de metáfora no texto? Labirinto é um substantivo masculino que, segundo o dicionário Houaiss, pode ser uma “vasta construção onde uma rede de salas e galerias se entrecruzam de tal maneira que fica difícil encontrar a saída”; ou um “emaranhado de caminhos”; ou ainda, em sentido figurado, uma “coisa muito enredada; emaranhado, imbróglio, dédalo” (HOUAISS, 2001, p. 1707), enfim, o que se encontra em cada personagem do romance, bem como no mundo onde vivem.

No mais, o próprio texto assemelha-se a um labirinto do tipo rede, no qual, como descreve Umberto Eco, “cada ponto pode ser conectado com qualquer outro ponto. […] extensível ao infinito” (2013, p. 62), porém sem exterior ou interior. Ou seja, um labirinto de várias conexões sem deixar saída como no texto, onde encontramos no emaranhado de conexões entre a loucura dos irmãos, da mãe, o autoritarismo do pai e a infelicidade das irmãs, bem como as conexões com um mundo ao seu redor, tudo parte de um mesmo labirinto.

Assim, angústia, decepção, culpa, arrependimento e claustrofobia são sensações que permeiam essa história. Como diz uma das frases do livro, “Se fosse uma peça de teatro, seria o teatro do absurdo” (p. 80). E não demora muito para nos sentirmos dentro daquela casa deteriorada, sentados na sala ao lado dos irmãos, do pai autoritário, sentindo a sujeira sob nossos pés, diante desse desfile de miséria que mais parece um sonho ruim, à semelhança do palco italiano do teatro burguês, que Theodor Adorno compara ao romance moderno, onde “o narrador ergue uma cortina e o leitor deve participar do que acontece, como se estivesse presente em carne e osso” (2003, p. 60). Mérito da autora que soube dar verossimilhança ao seu texto. Durante a leitura quase nos roçamos, ou somos roçados pelas vestes imundas daqueles homens perdidos, e podemos temer a possibilidade de não mais conseguirmos sair daquela casa, para nos tornarmos um deles, vencidos pela inércia.

 

*Este texto é o resumo de um ensaio de dezesseis páginas sobre o livro Desnorteio, com mais aprofundamento nos temas aqui apresentados.

Referência Bibliográfica

ADORNO, Theodor W. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: ______. Notas de literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.

ECO, Umberto. Da árvore ao labirinto: Labirintos. In: ______. Da árvore ao labirinto: estudos históricos sobre o signo e a interpretação. Trad. Maurício Santana Dias. Rio de Janeiro: Record, 2013.

ECO, Umberto. Semiose natural e palavra em “Os noivos”: Os nomes próprios. In: ______. Da árvore ao labirinto: estudos históricos sobre o signo e a interpretação. Trad. Maurício Santana Dias. Rio de Janeiro: Record, 2013.

FÁBRIO, Paula. Desnorteio. São Paulo: Editora Patuá, 2012.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

imageWILLIAM LIAL

William Lial é poeta, ensaísta literário, cronista e mestre em Literatura Comparada. Possui três livros publicados, Sombras, Noturno e O mundo de vidro. Também colabora com jornais, revistas e sites de Literatura. Assine seu blog: http://williamlial.blogspot.com. Contatos: wlial1208@gmail.com. Também se encontra aqui: https://www.facebook.com/WilliamLialEscritor; https://twitter.com/WilliamLial


PAULA FÁBRIO

Autora do romance Desnorteio, Paula Fábrio nasceu em 1970 na cidade de São Paulo. Formada em Comunicação Social pela Faap, atuou como redatora de publicidade. No campo literário, idealizou e dirigiu a Rato de Livraria, gerenciou o acervo da Biblioteca de São Paulo e atualmente escreve artigos para revistas acadêmicas. Desnorteio recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura – na categoria de autor estreante -.

imageVicentini Gomez é prudentino. Nasceu em Presidente Prudente no ano de 1957 em um sobrado ali na continuação do calçadão, próximo da linha do trem na divisa com a Vila Marcondes e estudou no Grupo Escolar Arruda Mello. imageVicentini Gomez que faz o Delegado Cavalcante na novela global “Joia Rara” caiu nas graças do público. Seu personagem ganhou outro status na novela. Tem até uma comunidade no facebook criada pelo Secretário de Cultura de Presidente Prudente Fábio Nougueira intitulada “Delegado Cavalcante” já com centenas de seguidores.

Passou pela terra natal inúmeras oportunidades com seus espetáculos, em especial o mega sucesso “Confidências de um espermatozoide careca” e desfila vez ou outra pelas ruas de Prudente quando visita os parentes e amigos.

Ganhou muitos prêmios com seus trabalhos no teatro e no cinema. Viveu outras personagens em diversas tramas da tela global como o mafioso italiano Don Cornélio em Malhação, o empresário romano Paolo Bianchi em Cama de Gato e o Serjão, aquele sequestrador atrapalhado de Carminha em Avenida Brasil, mas é com o Delegado Cavalcante que ganha notoriedade e popularidade.

image

Segundo o blog Aurora de Cinema:

VICENTINI GOMEZ faz o Delegado Cavalcante, personagem por si só mergulhado na antipatia do público, visto que a representação de uma força ideológica mantenedora do status quo, e, portanto, de uma sociedade onde manda quem tem dinheiro e obedece quem não pode escapar das mãos tirânicas do grande mandatário, no caso da novela o senhor Ernest Hauser, personagem vivido com eloquência por José de Abreu, um ator magnânimo que mergulha com profundidade na psicologia dos personagens que faz, e os faz com maestria. Mas apesar de fazer um papel que já nasce antipatizado em qualquer obra dramatúrgica, imageVicentini Gomez atua com tanta precisão e competência que seu personagem vem crescendo mais e mais na excelente trama de Duca Rachid, Thelma Guedes e Amora Mautner (e sua poderosa equipe de auxiliares, entre os quais estão Henrique Diaz e Joana Jabace). Merecidamente, diga-se de passagem. Pois mesmo por trás da sisudez do ‘encarregado de manter a ordem e os bons costumes’, Vicentini Gomez revela força e exatidão nas expressões com olhares, e gestual em perfeita adequação com o que pede o personagem. E isso o telespectador contumaz de novelas percebe, ainda que inconscientemente, e adere sem titubear. Pois assim fazem os atores que sabem de seu ofício: atuam dentro da concepção criada e dos limites definidos, e não destoam do conjunto da obra, ajudando a construir um todo harmônico que só valida e enriquece sua participação. Por tudo isso, Vicentini Gomez também é um dos Destaques no elenco de apoio de JÓIA RARA. Uma composição preciosa de um delegado conforme pede o enredo da obra teledramatúrgica”.

Diz o Jornal Cultura Viva:  “Como diz a lenda, “joia é um fetiche, mas saber usá-la é uma arte”. Na telenovela “Joia Rara”, às 18h, na TV Globo, a arte é o adorno maior da pedra preciosa e de toda equipe envolvida na trama… Contudo, nos vêm aos olhos um ponto que quase sempre passa despercebido. Para alinhavar e dar suporte ao colar, alguns personagens que aparentemente parecem pequenos, dão sabor especial à trama. Costuram a história como linhas especiais, estrangeiras, vindas de longe para completar uma peça fina…

image… E, por falar em “Avenida Brasil”, Vicentini Gomez, que lá representou o sequestrador atrapalhado de “Carminha”, agora vira homem da lei e do outro lado da balança; dá vida ao “Delegado Cavalcante”: amigo dos poderosos e avesso aos comunistas. Ganhou destaque na atuação. Homem que entende bem de teatro, cinema, mímica e muito mais, passeia nos diversos horários das novelas da Globo e mostra que temos artistas de peso que conseguem maquiar, embelezar e dar vida a figuras só observadas em livros ou histórias já esquecidas, ou quem sabe ainda, nunca contadas. Vicentini, assim como os amigos do elenco refletem o acerto na profissão. Artistas e arteiros que nos faz rir, chorar e se revoltar todos os dias via TV”

Vale destacar o comentário do crítico Armindo Blanco do jornal “ O Dia”, do Rio de Janeiro:

“Vicentini Gomez é um artista tocante, com aquela leveza de quem parece flutuar na superfície polida dos sentimentos e, ao mesmo tempo, vai fundo nas pequenas misérias –as chamadas fraquezas humanas- que procuramos esconder dos outros”.

E do crítico da Folha de São Paulo, Edélcio Mostaço:

image“Vicentini Gomez alcança uma exemplaridade que, pelas circunstâncias de nossa formação artística, isolam-no como o cultor de um gênero que deve ser prestigiado e mais profundamente conhecido pelas nossas plateias…”

Essas críticas falam de atuação de Vicentini em espetáculos teatrais, que lhe renderam prêmios e muitos elogios. Inúmeros outros comentários foram publicados em jornais de todo o Brasil. Vicentini é gente da terra. Em grande parte de sua carreira, ele escolheu viver e exercer sua vida artística na grande São Paulo, hoje, cenário de sua produção e criação artística mas nunca esqueceu suas raízes. Vai realizar seu sonho o sonho de produzir um filme-documentário sobre a história de sua cidade natal, Presidente Prudente. O projeto já foi aprovado no Proac-Icms. Agora é conseguir os recursos.

Outros projetos estão a caminho na área cinematográfica: o filme “Justiça! Uma História” que contará a história da justiça brasileira desde a  Colônia até o Mensalão.

image

Parque do Povo, em Presidente Prudente, SP, a capital da Alta Sorocabana, completará o seu centenário e sua história será filmada pelo cineasta e ator da terra, Vicentini Gomez. 

Blog Widget by LinkWithin