VerdesTrigos em 18/05/04

“Paisagens Noturnas” , de Vera Carvalho Assumpção, trata com elegância um tema que facilmente teria caído no realismo quase banal das ficções que realçam a violência. Nesse sentido, mais do que cumprir o script, a obra busca novos rumos e novos enredos para o gênero policial. O romance está bem amarrado e o desenvolvimento da história consegue prender o leitor do começo ao fim. por Fabio Silvestre Cardoso, em 18/5/2004 – Leia Mais

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VerdesTrigos em 18/05/04

”Foi o fim do espelho e o início do torcicolo”
(Veronica Stigger)

Não causam mais estranhezas a representação ou a imitação de uma legião de personagens doentios e suas fobias, a escatologia, a tragicidade, a deformidade dos seres, a profanação de atos, a não ser pela maneira como esses desvios são tratados pela linguagem. Se apontarmos para algum epicentro desse caos, a crueldade absurda pode ser originada das conspirações da gaúcha Veronica Stigger (1973), que estréia com O trágico e outras comédias (7Letras, 2004). Obra, diga-se de passagem, já publicada em Portugal, pela editora Angelus Novus, antes da edição brasileira.

O pequeno livro de contos pode não manter compromisso com uma estética da sublimação ou com o sentimento muitas vezes enojante da parcela pia e hipócrita da sociedade ou com a insinuação bajulatória ao leitor. Pelo contrário, Veronica Stigger não concede, a não ser a sua linguagem desafiadora e perversa. Ato que chega, algumas vezes, a tornar-se gratuitamente bizarro ou apenas grotesco.

Assim, distraindo-nos de alguns deslizes, caso do texto ”Maria Aparecida Boca-Suja”, desatinam-se narcisistas de carteirinha, tal como a personagem que some dentro do próprio umbigo (” Janice e o umbigo ”); ou aquele outro, homossexual, que se curva sobre o próprio pênis (”Ex-puto”); um jornalista que se deforma cada vez que fala com estranhos (”O mal de Mário Sérgio”); ou o narrador profano-escatológico de ”A chuva”, que poderá chocar mentes pudicas, em toda sua articulação, principalmente no seu desfecho: ”No sétimo dia, os caralhos descansariam”.

Leia a resenha na íntegra: por Jorge Pieiro

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VerdesTrigos em 13/05/04
Entendo que o Gênesis é uma compilação dos escritos e do conhecimento da tradição oral do povo de Israel. Há nele várias correntes do pensamento e do conhecimento hegemônico da época em que foi compilado, prevalecendo especialmente três correntes: a eloísta, a javista e a sacerdotal. Veja que no primeiro capítulo vemos duas narrativas da criação e a primeira delas, embora seja atribuída à corrente sacerdotal, adota o nome Elohim para o Criador.

Portanto, o livro sagrado do Gênesis não foi escrito por algum jornalista especialmente enviado para cobrir o acontecimento e descrever fielmente os fatos. É uma criação literária coletiva decorrente de milhares de anos de tradição oral e fragmentos escritos de vários povos daquela região. É fruto da viva fé e da esperança do povo e de suas experiências íntimas com Deus. Além de constituir-se em livro sagrado, também é um código ético e moral. Segundo a tradição judaica, foi compilado por Esdras por volta de 444 antes da Era Cristã.

" 1 No princípio criou Deus os céus e a terra. 2 E a terra era vã e vazia, e (havia) escuridão sobre a face do abismo, e o espirito de Deus se movia sobe a face das águas…"
Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets. Veha’arets hayetah tohu vavohu vechoshech al-peney tehom veruach Elohim merachefet al-peney hamayim.

"No princípio criou Deus céus e terra": a porta de entrada para compreender e distinguir minha própria fé. Ponho-me a refletir na existência do Criador, da qual não duvido. Atravessei esta porta. Minhas vistas se abrem, um novo mundo eu vejo: Elohim criou. Vemos que no hebraico Elohim é uma palavra plural (El é outro nome para Deus dentro das culturas semíticas). E o verbo criar (bara) está conjugado no singular. No hebraico bara é usado exclusivamente acerca do ato divino criativo, pois envolve o sentido de dar ordem ao caos existente ou mais especificamente, envolve algo que foi trazido à existência ainda que nada antes existisse. Creio que somente um Deus criou céus e terra, entretanto o único Deus existente é plural, o que não significa a idéia de pluralidade de pessoas.

Minha percepção, tanto como confissão quanto de conhecimento, é que um único e exclusivo Deus criou. Todavia, vejo várias conjecturas para o sentido de Elohim (no plural). O primeiro sentido frisa a majestade de Deus e todo o seu poder. Já vi alguns comentaristas afirmarem que toda a corte celestial também estaria presente no ato da criação, todavia creio eu que a corte celestial presenciou e assistiu o ato majestoso da criação. Entretanto a corte celestial apenas assistiu e exaltou a criação e com certeza não participou do ato criador, pois somente o Deus Único, na sua expressão plural, criou céus e terra.

Outros tentam extrair desse plural um sentido trinitário cristão, mais aí seria cristianizar demais o texto que não é fruto da experiência e da tradição cristã e sim da tradição judaica. A doutrina da Trindade somente foi adotada após o Concilio de Nicéia (325), todavia o termo "Trinitas" aparece pela primeira vez com Tertuliano, em Cartago, por volta de 212. Agostinho, no seu estudo "A Trindade", estabeleceu todo o fundamento de sua reflexão teológica na fé em um só Deus, sustentando que as três pessoas que possuem um única substância e essência e tem como ponto de partida a natureza una e única de Deus. Também não consigo admitir as três pessoas da Trindade distintamente consideradas, pois Deus é ÚNICO. Elohim (no plural) significa essencialmente a pluralidade de nossas consciências: é único e Pai de todos, mesmo que os homens insistam em chamá-lo de Elohim, Javé, Jesus ou Alá.

A confissão de que Deus é único e transcendente, não apenas uma oração, mas indica a exclusividade de minha fé. Não é somente um juízo de que Deus, um só Deus, existe, mas é a constatação da sua atuação criadora no princípio e por todo o sempre. Por outro lado, o criar de Deus é totalmente diverso do criar humano. Deus sempre existiu,mesmo antes da criação, pois é eterno (somente Ele é eterno). Houve um tempo que somente Deus existia e que seu ato criativo (não me importo que modus operandi Ele tenha utilizado) trouxe a existência a criação – céus e terra – em algum ponto remoto do tempo: bilhões de anos passados, por exemplo. A partir do quê? Do nada? Hebreus 11.3 diz que "o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas", tem sua origem no imaterial, nas realidades que somente existiam em Deus, de quem tudo procede. Foram criadas a partir da própria energia criativa do Deus único.

Por isso eu creio: Deus criou e continua presente em sua criação. Ele se importa com a criação e não há caos que o poder de Deus não consiga por em boa ordem (seja cósmica ou pessoal). E toda a criação e toda energia criativa que a impulsiona voltarão para Deus.

É para onde vamos.

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VerdesTrigos em 07/05/04

 

"A esperança tem duas filhas lindas,
a indignação e a coragem;
a indignação nos ensina a não aceitar as coisas
como estão; a coragem, a mudá-las".
Aurélio Agostinho, Bispo de Hipona (354-430d.C.).
Filósofo e teólogo cristão nascido em Tagaste,
no Norte da África. Sua morte, em 430 d.C., marca
o início da idade das trevas na Europa.
 
Começo dizendo sobre o que não sei. Sei que existe, compreendo, sinto sua presença, mas me é impossível apreender e descrever o mínimo de sua grandiosidade. Isso me lembra Agostinho de Hipona, sobre quem existe um episódio lendário: passeava este à beira-mar, quando encontrou uma criança ocupada a passar, com uma concha, toda a água do oceano para um pequeno buraco cavado na areia.

Diante dessa inócua tentativa, sustentou Agostinho que não seria possível tal operação. Respondeu então a criança, que se revelou ser um anjo, "- Será mais fácil colocar toda a água do mar neste pequeno buraco do que para ti explicar a mínima parcela do mistério da Trindade". Agostinho sequer tinha essa pretensão, suas pesquisas e indagações teológicas não tinham esse espírito, todavia conserva essa lenda um valor simbólico.

Sequer ouso comparar as presentes reflexões às agostinianas, mas confesso de imediato que tenho profunda admiração por Agostinho, que depois de Davi (o rei) tenha sido o mais santo entre todos, inclusive nós – eu e você leitor, (na minha avaliação, é claro), pois foram capazes de reconhecer o pecado e conviver com ele sem quer aniquilá-lo de forma fundamentalista.

Para melhor entender Agostinho, suas dúvidas, seu discurso, suas paixões e seu amor por Floria, sugiro a leitura de VITA BREVIS (a Carta de Floria Emilia para Aurélio Agostinho), de JOSTEIN GAARDER, através do qual você, leitor, entenderá porque admiro Agostinho e porque o considero santo.

SINOPSE: Vita Brevis: Flória Emília amou profundamente Aurel, entregando-se a ele e aos prazeres sensuais em que ele era mestre. Foi sua companheira fiel nas horas difíceis e dele gerou um filho. Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua santa e piedosa mãe. Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria. Mesmo assim, jurou fidelidade eterna a Aurel, a ele que se tornaria exemplo cristão, bispo de Hipona, Padre da Igreja católica, e por fim santo, Santo Agostinho. E agora, Flória Emília escreve-lhe esta carta…(fonte: Livraria Cultura)

Na Folha Ilustrada, de 16/10/1999, o escritor Marcelo Rubens Paiva apresentou uma resenha sobre o lançamento do livro do escritor gaúcho Moacyr Scliar: “A Mulher Que Escreveu a Bíblia” – livro interessantíssivo, que recomendo. Um detalhe interessante me chamou a atenção. Ele apresentou vários autores que se utilizam do seguinte artifício: alguém aparece do nada e entrega os originais de um livro ou de um manuscrito ao narrador. E perguntou se, com tal artifício, o autor ganharia mais liberdade, já que quem escreve não é ele, mas outro.

Confesso que não sei responder. Sei apenas que talvez isso seja realmente um excelente artifício para dobrar o narrador e dar liberdade ao escritor. Fico muito intrigado quando a ficção toma ares de realidade, quando praticamente com ela se confunde. Isto sim me tira o sono. Vejam bem: até hoje o livro Vita Brevis, de Jostein Gaarder, me tira o sono. O narrador encontrou uma carta de Flória Emilia escrita para Santo Agostinho num sebo, em San Telmo, Buenos Aires, na Argentina, e a comprou. Diz-se que tratava de uma caixa vermelha, cheia de manuscritos, com a etiqueta Codex Floriae. Realmente tudo indica que se trata da famosa mãe do filho do Bispo de Hipona. Será isto verdade ou mera ficção? Existe ou não tal Codex Floriae? Ou foi apenas um artifício do autor do famoso "O Mundo de Sofia"?

Já li o Vita Brevis por várias vezes. Cada vez que o pego, fico imaginando o drama interior por qual passou Agostinho, o santo. O texto de Jostein Gaarder é pungente, pois mescla todos os sentimentos possíveis da relação entre o Bispo de Hipona e a Flória numa linguagem simples e coloquial que vai da reflexão madura à erudição refinada, tal como fez Agostinho, nas suas Confissões. Outro livro de Agostinho que merece ser lido e relido é “O Livre-Arbítrio”. Quem fez eu tomar gosto pelos escritos de Agostinho foi o meu irmão Alfred Lamy, que mora em Franca/SP e ele sequer sabe disto. Agora, para iniciar escritos sobre o “Gênesis”, estou devorando "A Trindade", pois começarei pelo princípio: “Bereshit”.

" 1 No princípio criou Deus os ceus e a terra. 2 E a terra era vã e vazia, e (havia) escuridação sobre a face do abismo, e o espirito de Deus se movia sobe a face das aguas…"
Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets. Veha’arets hayetah tohu vavohu vechoshech al-peney tehom veruach Elohim merachefet al-peney hamayim.

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VerdesTrigos em 05/05/04
 

[UP DATE 22/01/2008] O amigo Leopoldo Pontes chamou-me a atenção para tradução do versículo acima. Sinceramente desconheço a autoria da tradução contida na nesta bela imagem que recebi por e-mail; certo é que não é da Bíblia Hebraica. Diante da indagação, fiz uma pesquisa nas principais versões que disponho. Veja e compare:

Bíblia Hebraica => 4.6. Melhor parece uma porção de tranqüilidade que duas mãos cheias, conquistadas com esforço e frustração .

JFA => 4.6. Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento.

NIV* => 4.6. Melhor é ter um punhado de tranqüilidade do que dois punhados à custa de muito esforço e de correr atrás do vento.  [Better one handful with tranquility than two handfuls with toil and chasing after the wind.]  

O poeta Haroldo de Campos fez a seguinte tradução do versículo:

Melhor §§
Uma palma-de-mão cheia  § de repouso §§§
Que duas mancheias § de fadiga § e fome-vento §§

Já a The King James Version traduz assim:

{4:6} Better
[is] an handful [with] quietness, than both the hands full
[with] travail and vexation of spirit.

*NIV = New International Version

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