Chico Lopes, que começou sua carreira como contista e publicou três livros de contos elogiados pela crítica nacional (“Nó de sombras”, “Dobras da noite” e “Hóspedes do vento”) sempre teve um anseio de escrever narrativas mais longas e foi elaborando novelas lentamente até chegar a “O estranho no corredor”, narrativa publicada pela editora 34 em 2011 que lhe valeu uma posição entre os dez finalistas do prêmio São Paulo 2012 e também um Jabuti na categoria romance (terceiro lugar) neste ano.

O sucesso de “O estranho no corredor” fez com que se voltasse para a feitura de novos romances, mas ele não abandona o conto, gênero em que pretende seguir publicando coletâneas. Ele tem um segundo romance pronto, trabalha num terceiro e trabalha também num quarto livro de contos, projetos acalentados para 2013.

Verdes Trigos: – A que atribui o sucesso de “O estranho no corredor” que, segundo nos informou, tem sido o mais lido de todos os seus livros publicados?

Foto: Chico Balero, aqui em Brotas, neste domingo, nove de dezembro, me fotografou ao lado do Jabuti que ganhei por O Estranho no Corredor. Ei-lo.Chico Lopes : – Sem dúvida, à boa edição e divulgação da editora 34, aos cuidados do editor Alberto Martins, responsável pela série “Nova Prosa”, de que o livro faz parte. Quanto aos méritos do romance, prefiro deixar isso ao juízo de críticos e leitores, mas tive a impressão, ao escrevê-lo, de que falaria com um número maior de leitores devido talvez à história tensa, meio thriller (que os leitores em geral dizem absorvê-los por completo) e aos personagens carregados, mas muito sintomáticos do mal-estar da atualidade (que atinge também cidades do interior, naturalmente). O protagonista, um professor que não tem nome, faz uma jornada dramática em busca de sua identidade, esmagada pelo puritanismo e a loucura da criação por uma tia.

V.T: – A história conquistou adeptos, mesmo sendo carregada. Teus livros anteriores, de contos, também foram considerados sombrios. O que tem a dizer a respeito disso?

Chico Lopes: – Procuro (e creio que em geral encontro) leitores que não vejam a literatura só como entretenimento. Uma história bem contada, creio eu, com elementos que possam ir ao fundo dos problemas profundos de cada leitor, será lida com o prazer de descobrir coisas e relações num nível mais exigente de percepção. O sombrio é uma categoria estética, se confunde com o gótico, o terrível, e revela outras camadas da psicologia humana que também satisfazem à ânsia de conhecimento natural em todo leitor. A dor nos ensina tanto quanto a alegria (possivelmente até nos ensine mais). Lemos livros trágicos com o prazer da catarse numa realização estética ambiciosa. Livros estão aí para oferecer prazeres dos mais diversos tipos. O verdadeiro leitor de literatura não busca apenas amenidades.

V.T: – Saltar do conto, reino da concisão, para o romance, que exige uma dilatação, costuma oferecer riscos. Como foi no teu caso?

imageChico Lopes: – Foi um salto natural, até porque eu escrevia contos curtos tanto quanto longos, sem me preocupar com extensões nem achar que tinha que me submeter à moda do minimalismo ou a qualquer outra. Creio que certos temas e personagens se acomodam melhor a narrativas mais longas, a questão do fôlego das narrativas é mais complexa do que parece à primeira vista. Naturalmente, eu tive muito medo de estar pisando num território em que poderia tropeçar e quebrar a cara. Mas, não foi assim: a crítica me recebeu muito bem, sobretudo o crítico Alfredo Monte, que escreveu uma linda resenha, na verdade um ensaio, sobre o livro. E os leitores se entusiasmaram pela história. O curioso é que alguns se confessaram verdadeiramente perturbados, não conseguiam dormir pensando nela. Uma leitora chegou a confessar que andava falando obsessivamente sobre a novela ao seu psicólogo, nas sessões de análise que vinha fazendo! (risos)

V.T: – Como vê os rumos da atual literatura brasileira?

Chico Lopes: – Não posso opinar sobre isso, porque minha visão não é panorâmica o suficiente. Leio livros de amigos aqui e ali, vejo as movimentações editoriais, feiras, festivais, e, a julgar por publicações e comentários, parece existir um vigor considerável. Mas, como moro no interior e não circulo entre grupos literários das capitais, creio que minha visão é forçosamente limitada. Apontar rumos me pareceria muito pretensioso. Mas, como escrevo opiniões de vez em quando, dou palestras e viajo de quando é possível, encontro pessoas sempre generosas e animadas, que me fazem crer em continuidades positivas. No entanto, o mercado editorial é tão limitado e sofrido para o escritor brasileiro que prefiro manter um pé atrás, guardando um saudável ceticismo.

V.T: – Dentro de qual movimento você se incluiria? Dos novos e transgressores?

Chico Lopes: – Aprecio as cabeças muito abertas de Nelson de Oliveira, Marcelino Freire e outros da turma, mas tive uma formação muito eclética, muito voltada para clássicos pesados (como Dostoiévski e Proust), na solidão do interior, e segui um caminho de influências muito híbridas, sem me ater muito a novidades (gosto das inovações de forma apenas quando elas se põem a serviço de uma linguagem cuidada; não me deixo iludir por bossinhas e telegrafismos superficiais). Creio que minha escrita é muito densa, psicológica e irônica, e tende a filosofar, a arriscar profundidades que não vejo sondadas por aí, entre os mais novos. Além do mais, sou forçado a falar como o homem de 60 anos que já sou e que não teria vez na colheita brasileira recente da revista Granta (risos). A ânsia pelo sucesso imediato prejudica os mais novos de modo decisivo, há gente demais escrevendo livros ruins ou descartáveis. Estreei em livro publicado com 48 anos. Não queria publicar qualquer coisa que estivesse em minha gaveta. E continuo achando, com Machado de Assis, que “o Tempo só respeita aquilo que é feito com tempo…”

V.T: – Fale de seus projetos para 2013.

Chico Lopes: – Terminei um segundo romance, dessa vez mergulhando na alma de uma mulher solitária, de 50 anos, e seus sonhos patéticos de amor. Fala a uma geração de mulheres que, na fronteira com a velhice, entram em desespero e precisam lidar com ilusões que estão indo para o ralo. Comecei um terceiro, mais amplo, em que falo das desilusões de uma geração toda, representada por dois amigos que querem escrever, mas tomam rumos diferentes em sua vida, oprimidos por uma cidade pequena. Esse tem uma quantidade muito maior de personagens e situações. E mais humor. Escrevo também um quarto livro de contos. Pelo jeito, os contos serão longos: o primeiro deles, concluído, deu 40 páginas! Tudo isso, claro, será muito reescrito e publicado lentamente, creio que em 2013 ou 2014…

V.T : Todo escritor tem sua visão de mundo. Qual seria a sua?

Chico Lopes: – Sinto-me um herdeiro do realismo pessimista da literatura de fins de século 19 e meados dos 20. Mas tenho uma tendência pronunciada ao lirismo, ainda que ela seja refreada pelo sarcasmo e a ironia. Tenho uma preocupação crescente com que minha escrita, embora inquietante, seja também poética. E também gosto de introduzir pitadas de fantástico e surrealismo no que faço, já que não acredito que o realismo clássico possa dar conta da loucura do mundo. Gosto de escritores que saibam criar atmosfera e perturbar, como Julien Green e Céline. Mas aí também cabe gente como Ray Bradbury e H.P Lovecraft. Um livro que não perturbe os leitores não me interessa. Precisamos ser sacudidos em nosso conformismo e nossas visões acomodadas do mundo. Não sou descrente de Deus, apenas acho que não devemos negligenciar nosso papel como homens neste planeta perverso e ficar dependurados em fantasias compensadoras. Deus nos cobra, nos empurra para um crescimento sofrido. Minha religião é ver na literatura as dores e compensações deste crescimento que se desdobra à sombra do Insondável.

CHICO LOPES

Chico LopesO escritor Chico Lopes, nascido em Novo Horizonte (SP) e atualmente residente em Brotas/SP, crítico de cinema e de literatura, pintor e tradutor, colaborador regular deste site , depois de publicar três livros de contos na última década (" Nó de sombras ", "Dobras da noite" e "Hóspedes do vento"), estreou no gênero novela, tradicionalmente classificado como intermediário entre o romance o conto. Seu novo livro é O ESTRANHO NO CORREDOR, 130 páginas, publicado pela editora 34, de São Paulo, em sua coleção "Nova Prosa". Seu novo livro, O Estranho no Corredor lhe valeu um Prêmio Jabuti.

 

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