Sérgio Rodrigues, em “Sobrescritos”
Uma das diferenças mais marcantes (e irreconciliáveis) entre meu brilhante marido americano Alan e esta modesta brasileira chinfrim que cotidianamente vos fala em linguagem de botequim é que embora ele saiba tudo, tenha aquela velha opinião formada sobre tudo, vocês sabem, em vez de ensinar, generosamente dispensar aos pobres ignorantes terceiromundistas que tanto o aborrecem o favor de sua aprofundada cultura californiana de topo de mundo, Alan não raro me obriga – e pior, sempre em momentos de franco relaxamento quando eu tento, ao cabo de árdua jornada mental, descontrair os neurônios exaustos com um filme bobinho qualquer em cartaz na HBO – a uma involuntária e insuportável prova oral: “o que você está vendo aqui?”, ou, “quem foi tal e tal?”, ou ainda, “o que significa em termos de semiótica pós-existencialista esta cena a que acabamos de assistir?”, pô. Peraí. Acabo irritada, e se não conseguir que ele cale de vez sua ilustrada boca de Berkeley, me dando a chance de envolver-me com a trama exibida sem pensar demais, como gosto de fazer, me desligo, não custo a adormecer. Tem sorte ele que eu já não vejo as novelas da Globo.
Tudo bem. O mundo é feito de pretensão, falsa compreensão, meros arrotos de erudição, isso todo mundo sabe, mas gente, por quê? Não seria bem mais adequado informar, responder, espicaçar a curiosidade pra matá-la em seguida, ô coisa boa, compartilhar com quem você amaas coisas incríveis que teve a sorte de conhecer? Hein?
Taí. Foi por isso e por pouco mais que isso que me arrisquei a “tirar Joyce de seu pedestal para examiná-lo e devolvê-lo às ruas“, pisando firme “nos tapetes de Versailles calçando havaianas“, ora, gente: por pura e simples generosidade, ou ingenuidade intelectual, sei lá, chamem como quiserem. O resultado? Ei-lo aí: todo dia alguém novo, antes medroso frente ao autor misterioso, se decide a desarmar-se pra simplesmente aproximar-se do gênio irlandês, deliciar-se com ele, engrossar, como ele mesmo disse, o coro dos “dois ou três pobres-coitados que eventualmente poderiam ler “as “coisas triviais” que ele escreveu. Podem conferir.
Eu nem teria escrito sobre isso se não fosse o imbróglio insistente da embaraçosa ignorância que no outro dia, inocente, sem pensar muito, expressei na intelectualíssima caixa de comentários do blog do Sérgio, ah, gente, pra quê. O curioso é que em resposta à minha cândida confissão de nunca ter ouvido falar no “inigualável Camilo”, uma lacuna, claro, inaceitável n’alguém que se pretende escritora – “a nível” de desculpa eu poderia deplorar o ensino básico das letras lusas no Brasil, já que, vamos combinar, não sou exatamente uma “iletrada pedante” e até me arvoro em público de especialista em Joyce, imaginem – ninguém, nem uma só alma piedosa foi generosa a ponto de esclarecer, Camilo é tal e tal, não seria bem mais fácil? Mas qual. Nem uma humilde resposta à minha dúvida cruel, genuína e sinceramente despejada depois de uma investida malsucedida no google nosso de cada dia.
Pois é. Se alguém por aqui não entende o que eu digo, ou não conhece os autores que eu cito, basta perguntar, viu? Nem é preciso se envergonhar, pode deixar que se eu souber, logo respondo. Ou investigo. Afinal de contas, nada é mais gostoso nesta vida do que iniciar um dileto amigo nos prazeres solitários que só você cultivava até ali. Ler James Joyce no original, por exemplo, “para valer, não para citar nas rodinhas”.
Ah, tá bom. Pior a amêndoa que o mau soneto, né? Melhor deixar o assunto quieto.
* um manifesto de coragem rebelde contra a pretensão que ele tanto detestava, by James Joyce himself: está no Ulysses
Noga Lubicz Sklar nasceu em Tibérias, Israel, em 1952. Graduou-se em arquitetura no Rio de Janeiro. Desde 2004, dedica-se exclusivamente à literatura e escreve diariamente no Noga Bloga, seu bem-sucedido blog de crônicas. O gozo de Ulysses – As múltiplas línguas de James Joyce é seu terceiro livro publicado.
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