estranhonocorredorO escritor Chico Lopes, nascido em Novo Horizonte (SP) e atualmente residente em Poços de Caldas (MG), crítico de cinema e de literatura, pintor e tradutor, colaborador regular deste site , depois de publicar três livros de contos na última década (" Nó de sombras ", "Dobras da noite" e "Hóspedes do vento"), está estreando no gênero novela, tradicionalmente classificado como intermediário entre o romance o conto. Seu novo livro é O ESTRANHO NO CORREDOR, 130 páginas, publicado pela editora 34, de São Paulo, em sua coleção "Nova Prosa". O livro deverá ter lançamentos em Poços de Caldas e São Paulo. O autor conversa com Henrique Chagas, de Verdes Trigos, a respeito deste novo trabalho.

VT:Como é passar do conto para a narrativa mais longa?

Chico Lopes: - É um salto que eu sempre quis dar e, como sou muito cauteloso em termos de mudanças, foi dado devagar, avaliando bem os riscos. Escrevi a novela lentamente, paralela ao meu trabalho com os contos, e gostei. Na verdade, com esta, escrevi duas novelas, e agora escrevo um romance. De modo que o salto teve um aspecto gradativo, cauteloso, realmente. Mas, como autor, me satisfez muito. Até porque meus contos, por vezes longos (o leitor poderá conferir nos três livros lançados), tinham uma propensão natural a se dilatar, a lidar com tramas e personagens secundários. De modo que eu me sentia predestinado a esses gêneros, de certo modo. Saltei do riacho para ribeirões e grandes rios de modo natural.

VT: - De que trata a novela? O título sugere alguma história policial ou de suspense…

Chico Lopes: - É verdade, alguns amigos me elogiaram pelo título, que sugere muita coisa. Mas faz pensar realmente em alguma história de mistério, daquelas que guardam um desfecho surpreendente. Mas esse tipo de construção, que se esgota quando o leitor acaba de ler o livro, não me interessa, é comercial e banal demais. Posso garantir que não é uma história nem de suspense nem policial. Sua estrutura lembra um pouco a de um thriller, porque há uma perseguição constante se desdobrando capítulo após capítulo, mas a novela é menos realista que psicológica e simbólica. Lida com os fantasmas masculinos de um homem que precisa enfrentar a estagnação do atavismo e construir sua própria virilidade diante do Destino. Não é um tema comum. Mas mais do que isso não posso adiantar.

VT: - É comum a influência do cinema nos teus contos, devido à sua atividade de crítico de cinema (Chico é programador e apresentador de filmes no Inst. Moreira Salles de Poços de Caldas desde 1994). Há também a influência da música, da pintura e de outras artes sempre presente em teu trabalho. Isso se repete agora?

Chico Lopes: - Ah, isso jamais me deixará. Sempre há muito de cinema, muitas citações de letras de música, e um gosto pela descrição, pela cor, pela atmosfera, em minha ficção. Isso se junta naturalmente, em mim, a influências que reconheço: Henry James, Proust, Dostoiévski, Kafka, Graciliano Ramos, Julien Green, Lúcio Cardoso. Tenho predileção declarada por construções psicológicas densas e histórias com personagens marginalizados, que vivem grandes impasses. É a minha marca pessoal. De modo que "O estranho no corredor" traz o meu mundo habitual, mas acho que nele trabalho nos diálogos mais que nos outros livros.

VT:Como vê o panorama literário brasileiro atual? O que pensa de salões, feiras e outras atividades divulgadoras da literatura?

Chico Lopes: - Com o pouco hábito de leitura que o brasileiro tem (e com o gosto pronunciado por livros descartáveis, de humor, de besteiras da moda), creio que a literatura é vista, em geral, como chatice ou apenas como um entretenimento de importância secundária, pelo grosso da população. Isso vem sendo combatido, claro, com maior ou menor sucesso, e pode-se dizer que há mais gente lendo hoje em dia (mas é preciso ter cautela ao afirmar coisas assim). Feiras e salões desempenham um papel interessante, embora por vezes pareçam, como disse o Joca R. Terron no "Metrópoles" dia desses, "supermercados de estrelas literárias". Feiras e salões precisam de nomes famosos para atrair o público, e por isso os aspectos mercadológicos prevalecem, quando deveria haver uma abertura maior para o debate mais sério. Ao fim, o que se vê é uma mescla de muito comércio & espetáculo e alguma reflexão, e, como esta alguma reflexão é preciosa, são eventos necessários. Tenho participado da Feira Nacional do Livro em Poços de Caldas, que cresceu bastante nos últimos anos, dando palestras, com bom público. Mas não ambiciono de modo algum ser um sucesso de grandes proporções. Me parece, ao contrário, que a literatura que faço tem que conquistar leitores empenhados e mais convictos de seus gostos, e estes serão necessariamente sempre em número menor.

* Chico Lopes é autor de três livros de contos, Nó de sombras (2000), Dobras da noite (2004) e "Hóspedes do vento" . Participou de antologias como " Cenas da favela " (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como " Maligna " (Gregory Maguire) e " Morto até o anoitecer " (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

Mais Chico Lopes, clique aqui

E-mail: franlopes54@terra.com.br

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5 Comentários on Depois de três livros de contos, Chico Lopes estreia no gênero novela

  1. Rosângela Vieira Rocha disse:

    Caro Henrique,

    Achei a entrevista com o Chico Lopes maravilhosa. Pena ter sido tão curta (eu queria ler mais, saber mais). Parabéns ao autor e parabéns para você, que, com sua sensibilidade refinada, sempre soube onde e como encontrar os grandes escritores. Cordialmente, Rosângela

  2. Antônio Carlos de Sousa Pereira disse:

    Pois é… Sempre queremos mais da lavra de Chico Lopes. Entrevista curta, mas essencial e contundente, como é próprio de CL. Prá quando os lançamentos???

  3. chico lopes disse:

    Rosângela e Antônio Carlos:

    Muito bom ter pessoas assim, amigas, sempre interessadas naquilo que fazemos. Agradeço muito.

    Chico Lopes

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