(íntegra do artigo de Noga Sklar publicado na edição de junho, nº 115, da revista Marketing Cultural)
Quando a nova versão do software, prometendo mundos e fundos, baixou no meu Kindle em meados de junho, eu mal imaginava o barato que ia dar, mas, gente, foi ler, clicar e enviar, e em menos de um segundo, voilà: meu trecho favorito publicado no Twitter e no Facebook, já pensaram que alcance tem isso? Todo mundo sabendo do que eu gosto, gostei ou li, e mais, eu sabendo do que todo mundo gosta, e daí, gostando e lendo também: esse é mais ou menos um resumo da nova ferramenta de divulgação online adotada pelo Kindle da Amazon, sem nenhum custo extra para o autor ou seu editor. Um boca a boca ampliado, instituído e otimizado, com a devida carga de credibilidade associada à sincera amizade, bem, amizade de Facebook e Twitter, pelo menos.
Eis um resumo do que vem por aí em termos de divulgação de livros. Dos digitais, eu garanto: de fazer inveja a qualquer catálogo impresso, resenha de jornal ou livraria física. E mais os vídeos promocionais, releases com imagens ao vivo, o autor disponível com videoautógrafo no Skype e por aí vai, uma criatividade sem limites, e o melhor de tudo: por um preço acessível e sem intermediários para onerar o processo.
A mão profissional continua imprescindível, é claro: um editor para o texto, um designer para a capa, um selo editorial para o acesso às livrarias, um assessor experiente para a dobradinha release/promoção, mas cada um deles, diferente de antigamente, podendo ser contratado em separado, ao gosto do freguês, ops, autor: abaixo a ditadura do editor.
Nada disso releva, é claro, o quem indica. Mas facilita. Se você é iniciante, mas leva jeito de artista, comece convidando para seu Facebook ou Twitter os ditos formadores de opinião: enquanto na vida real todo mundo faz questão de se colocar num olimpo da fama, de acesso quase impossível aos tediosos e aventureiros mortais, nos sites de relacionamento costuma acontecer exatamente o oposto disso. Todos querem ter um milhão de amigos, você é aceito sem muita burocracia. E um rol respeitável de “amigos” é audiência mais ou menos certa para um futuro lançamento de livro. Serão todos convidados para a sua noite de autógrafos, cada vez mais desapegada da geografia, e também, para alívio dos tímidos, da intimidadora presença física.
Um escritor pode, perfeitamente hoje em dia, ter acesso direto por email a um editor que o ouça, edite e distribua sem sair de sua desejável toca de autor solitário; trocar mensagens com leitores futuros; experimentar doses homeopáticas – ou cavalares, como quiser – de texto em construção através de blogs, ou notas, ou tweets, conforme a mídia escolhida. Se der sorte, pode até trocar ideias online com um autor consagrado, monstro sagrado, sem precisar do ultrapassado “pistolão“. Mas tudo isso, ainda, sem dispensar o fator sorte, é claro. Ou simpatia, ou charme, ou indicação. Enfim, gira tudo no mundo mais ou menos como sempre girou, mas bem mais informal, com muito mais agilidade e leveza.
Texto pronto, revisado e ditado, vem a melhor parte: edição digital não tem tiragem, nem custo de impressão. Uma vez o arquivo pronto, fica eternizado na distribuição podendo ainda, se for o caso, ser alterado, caso haja uma urgente ou grave pós-revisão. Já me ocorreu, por exemplo, alterar capa e até nome de livro distribuído, sem problema nenhum. E como o investimento é bem mais em conta, dá margem sem riscos aos riscos da experimentação.
Livro publicado e posto à venda, é hora de fazer uso das muitas ferramentas que a gente agora tem à disposição: cria-se online o evento de lançamento para o qual, em frações de segundo e sem despesas extras de convite ou correio, todos os seus amigos, mais os amigos de seus amigos e ainda por cima os amigos destes – é o que se chama de marketing viral, em sua melhor versão digital – são convidados, podendo confirmar o comparecimento ou não. Sua popularidade, é claro, continua dando as cartas, mas o melhor de tudo é que não é necessário dar também as caras, e nem viajar o país para isto; só os tweets e, com um pouco de sorte, centenas, milhares de retweets. Nas páginas do Facebook cabem também sem nenhuma dificuldade o vídeo-release, depoimentos, “curtições” de pré-leitores e os trechos escolhidos para divulgação; uma vez que você começa a ser vendido e lido, também as incríveis passagens favoritas vindas direto dos milhares de Kindles, PCs e celulares que contêm o seu livro, e somando. Não custa repetir. Pra quem dispõe ainda de um mínimo orçamento, vale o anúncio pago no Facebook – melhor e mais eficaz do que o Google, que vale também – criado online e debitado no cartão conforme a visitação. Tudo muito fácil e rápido, sem grande especialização. E as promoções, banners e entrevistas nos portais literários mais bem posicionados no ranking.
Agora, é claro, quanto melhor for o seu livro, quanto mais bem tratado, revisado e diagramado o seu produto digital, e quanto maior a sua rede prévia de amigos, influentes ou não, maiores serão as suas chances de um retorno bem-sucedido. E dar tempo ao tempo, pra que as pessoas se acostumem ao hábito de baixar um livro.
No mais, só te resta rezar. A profissão de escritor continua sendo uma profissão de fé, fé na vida e no seu leitor: isso não mudará nunca. Embora a variedade, facilidade e acesso direto do comprador ao seu livro se beneficie cada vez mais da eterna e incrível criatividade inerente ao mundo mutante da tecnologia – um novo iluminismo, a renascença dos livros e não, como muita gente pensa, a sua condenação final.
*** Noga Sklar é escritora e editora da KindleBookBr, primeira editora brasileira 100% dedicada ao livro digital. Tem 7 livros publicados. A KBR, em apenas 8 meses de atividade exclusivamente via internet, direto das montanhas de Petrópolis, já atinge (ops, ultrapassou) a marca dos 50 livros, entre publicados, distribuídos e convertidos aos novos formatos digitais.
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