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“A Polaquinha”: lembrança da grandeza de Trevisan

por Chico Lopes *
publicado em 23/05/2005.

Por esses dias, andou-se falando de escritores octogenários - Rubem Fonseca e Dalton Trevisan - que o Brasil literário aprendeu a venerar desde os anos 70. Quando li sobre esses aniversários, apesar do respeito que esses dois nomes inspiram, não pude deixar de sentir que eram apenas lembranças, que há muito tempo eu e outros já não líamos nem Rubem nem Dalton, apesar da importância que os dois tiveram para quem começou a levar a literatura mais a sério naquela década (e, no caso de elenco, sem dúvida, foram anos brilhantes, lembrando mais dois nomes de então, também mais do que consagrados - Ignácio de Loyola Brandão e Lígia F. Telles). A sensação mais forte das décadas seguintes foi a de uma progressiva diluição, a tal ponto que qualquer coisa que pareça "trangressiva" ou "vanguardista" hoje em dia já nasça com cara de requentada.

Minha lembrança primeira de Trevisan foi de alguns contos esparsos que, acredito, tenham pertencido àquela primeira grande fase dele, dos livros "Cemitério de elefantes", "Novelas nada exemplares", "O vampiro de Curitiba", "Guerra conjugal". Não sei o que acharia deles relendo-os hoje em dia, mas foram decisivos, ao lado de outros, nacionais ou estrangeiros, no meu desejo de me tornar um contista. O mesmo para Rubem Fonseca, Loyola Brandão e Lígia F.Telles. Eu admirava aquela lucidez, aquele gosto pelo substantivo, aquele realismo. De Loyola Brandão, tive a sorte de ser um correspondente assíduo, de modo que o acompanhei desde o sucesso de "Não verás país nenhum" à Alemanha dos "verdes", no início dos anos 80, culminando com seu retorno ao Brasil. Foi uma espécie de generoso padrinho à distância, por cartas, que me deu orientações preciosas no caminho para lá de pedregoso de então.
Mas, quanto aos contos de Trevisan, lembrei-me menos deles do que de uma mulherzinha imprecisa, que ficou ali, dançando na minha memória, enquanto lia a matéria sobre seu aniversário. Quem era? Ah, sem dúvida, era a "Polaquinha".

A galinha zonza e o narcisismo dos carrascos

Creio que essa novela é uma boa maneira para o leitor novo se iniciar no mundo de Dalton Trevisan. Não é um Trevisan típico porque, contista sempre, Trevisan dizia que pretendia chegar ao hai-kai através de sua vocação decisiva para a economia, a síntese e o laconismo. Mas, ele foi tão cobrado para que produzisse algo mais longo (ou se impôs isso) que um dia apareceu com essa novela que não é mais que uma dilatação de um de seus personagens recorrentes - a putinha curitibana, de vida miúda, uma ninguém, tão desejada quanto pisoteada sem a menor consideração. Em forma de autobiografia ou irônico "romance de formação", a narrativa lembra um pouco outra de Trevisan, pastiche de "Fanny Hill", chamada "Dinorá, moça dos prazeres".

É impossível ler "A Polaquinha" sem dar boas risadas. O humor de Trevisan é soturno, mas é forte - ele lida com gente esmagada pela vida exterior ou por seus próprios preconceitos, mas, como se recusa a ser sentimental, trabalha no sentido de "espanar" os chavões de sofrimento e auto-compaixão dos personagens, deixando-os nus diante de seus impasses, que são os nossos. Não se pode deixar de rir: nós somos aquilo, perpetuamente iludidos com nossos bordões de auto-consolo e dispostos a ignorar com violência o mal que fazemos a nós mesmos e aos outros. É um riso terapêutico, com perdão da palavrinha demagógica. Um grande escritor tem é que fazer isso mesmo: expor o "demasiado humano" com toda a coragem possível.

A vida da "Polaquinha" (criatura de quem nunca sabemos o nome) é aquilo: uma mocinha normal, pobre, criada num ambiente de preconceitos e sandices que são ora divertidos ora letais, que menstrua, conhece o primeiro namorado e vai seguindo, homem após homem, na descoberta de um mundo masculino pelo qual se sente atraída como uma galinha zonza pelos faróis do um automóvel que haverá de atropelá-la.

Seus amores são seus carrascos, são bem os tipos de conquistadores comuns que lastimavelmente constituem a fauna do machismo brasileiro: narcisistas, inseguros, egoístas a não mais poder, manipuladores, obcecados pela performance na cama e o tamanho de suas estacas, maridos adúlteros e hipócritas, cafajestes de pequena monta que sabem seduzir mocinhas deslumbradas ou pobres diabos socialmente falidos que jogam seus malogros sobre a vítima mais fácil e mais próxima: a mulher. "Você nunca sabe nada de ninguém", diz a "Polaquinha". É o sumo do óbvio, é a coisa mais terrível. Basta pensar um pouco e se verá como é duro admitir essa verdade tão simples.

Muitas coisas podem ser descobertas nessa novela que parecerá, ao menos avisado, algo de picante, vagamente pornográfico. Nada a ver. Tudo que acontece nessa vida sexual ordinária, entre criaturas que mal sabem distinguir entre o sensualismo mais raso e o sentimento (e usam este para mascarar um desejo de posse fugaz), é mais patético que excitante. O alvo é a lucidez e a compaixão com um riso desconsolado, ou uma mistura de ambos, mas, em todo caso, as chantagens emocionais não têm a menor chance com Trevisan. A integridade do escritor nunca decai.

Há uma seqüência perfeita em que, no entra-e-sai de clientes num bordel onde a personagem está fazendo um dinheiro temporário, Trevisan monta como que uma série de quadros de cinema mudo, rapidinhos, onde o que acontece é uma eterna repetição mecânica e histérica da mesma miséria, as variações sexuais sendo as mais previsíveis do mundo, mas cada um dos clientes achando-se original entre os originais, bem-dotado entre os bem-dotados, e a "Polaquinha" sempre concordando, com termos praticamente iguais. O sexo aí, despido de sua aura de excitação, aparece como um automatismo estúpido, praticado por gente baixa e infeliz que mal sabe para que ele serve e tem pressa de aliviar-se fisiologicamente, aproveitando para aviltar o parceiro, gozando uns minutos de prepotência - o medíocre da rua vira o ditador na cama.

Creio que é por personagens assim que Trevisan, recluso convicto e verdadeiro, será lembrado sempre. Não acredito que suas obsessões formais, chegando a um telegrafismo mínimo, interessem tanto assim a seus leitores (são mais fetiches para a crítica acadêmica). Interessa mesmo é sua visão singular da humanidade. Ele criou uma atmosfera, dentro da literatura brasileira, e de um modo tão consistente que seus imitadores nunca nem sequer chegaram perto.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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